sábado, 27 de agosto de 2011

TRANSFERÊNCIAS

Transferência

Transfere pra cá
Transfere pra lá
Transfere-se o que se pensou ser o amor soberano e notável
Transfere-se para o prato cheio o afeto frustrado e descartável
Consola-se com o frutado cheiro da salada de frutas
As coisas se fazem de “trutas” em cada olhar atento
Transferem-se os intentos reais para os últimos sonhos
Sonhar matinal para domar o passado e encarar o presente
Das próximas horas em escolhas e decisões imprecisas
No topo da consciência é tão fino o fio da vida
Que as maiores empreitadas são comparadas com as já em ruínas
Não é bom dar-se conta das coisas sem um acolhedor fundo musical
Ruídos a arruinarem restos das nossas mais caras vontades
Muitas adormecidas no caprichado e artesanal ninho do próprio esquecimento
Mesmo assim insistimos nos planos que após rebocos exigem acabamentos
Artísticos que dêem harmonia e luz para consolo dos nossos olhares fatigados
Para no final tudo transferirmos para o caos indiferente da duvidosa simetria
De uma fugaz memória qualquer que repousa no berçario da melancolia

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

PLÁCIDO REPOUSO

Plácido Repouso
Quando num dia de aconchego em rede a balançar
Naquele entardecer em que se misturam gozo e nostalgia
Num vaivém que leva a sonhar com fama e glória
Em que só sonhar já está bom demais porque da glória e da fama
Todos que por ali as saboreiam reclamam da falta de privacidade
Por serem assediados em qualquer canto da cidade
Quem como eles não podem mais andar descalços
Pelos gramados dos parques numa manhã de outono
Quem como eles só se deslocam em peças de poderoso aço
Blindados que estão de balas de grosso calibre e dos olhares
De louca paixão dos admiradores que degustariam suas carnes cruas
A solidão de um busto em bronze numa praça na mais fria madrugada
 É menor que a deles
Para se sentirem vingados dessas e outras geladas
 Os consolos que a sociedade lhes oferece são: grana e fama
Que são as suas amáveis companheiras deitadas cada uma de um lado
De suas esparsas e encantadas infantis camas carregadas de sonhos amargurados.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

SUCESSO

Sucesso
Londres e ladrões por onde escoam os nobres
Provectos ladrões na Londres por onde sonham os insensatos
Ladram os consuetudinários cães londrinos indiferentes a tanta insensatez
Nos guetos nas madrugadas dos desesperados se acumulam em fome e dor os avindos do mundo todo
Uivam os pecadores confessos desesperados no frio ou no calor
 No verão bretão que amanheceu hoje em fogo e fumaça
Venho recordar de Jean Charles de Menezes que também pensou em melhorar
 De vida na vida a ele prometida assim como a todos os esperançosos inquietos
 Em viva vontade de se tornar ele também um civilizado ser
Jean para isso precisava ter força de vontade e criatividade
E escolheu essa culta cidade como o local de duelar vida e trampo
E o que conseguiu ali foi só negociar seu corpo com algumas balas de um medroso despreparado
E assim, só deixar – o que não é pouco – o seu querer viver melhor fora do Brasil
Esse Brasil que é exportador das mais verdadeiras
Falsas esperanças
Jean poderia ter escolhido Londrina
Que é tão aqui mais perto
E correr outro tipo de risco menos incerto
Talvez o calote de algum 171 esperto
Um assalto de pivete munido de canivete
Um batedor de carteira ressuscitado de outros tempos
Nunca pensara Jean emigrar para fora do tempo
Tão pobre como este inócuo relato aqui perdido