Hoje eu não sonhei
Hoje eu não sonhei ou só não me lembro dos sonhos que sonhei
Dos sonhos de ontem eu não me lembro mais o que sonhei
E se amanhã eu também não me lembrar dos meus sonhos
Poderei me perguntar se ainda estarei vivo por inteiro
Antes de nascer vivíamos nos sonhos de alguém que sonhava a gente
Quando fizermos a viagem para morarmos na morada do sempre
Aqui deixaremos nos sonhos de alguém um resto da nossa imagem
Que não se corrompeu e se cristalizou em sonhos recorrentes
Talvez de um amor na adolescência que se fixou apenas na contemplação
Desses amores - sabe você se o vivenciou - que nos deixaram a levitar e
Orbitar como se fossemos capturados por poderosas emanações
Provindas da essência das flores que cativam por seus odores irresistíveis
Não nos basta apenas o desejo, a vontade de sonhar
É preciso sonhar nem que seja num cochilo mal sucedido
Que nos dá um baque brusco na cabeça como se ela fosse rolar
Decapitada pela lâmina invisível daquela que nos espreita a todo instante
Essa é a hora de se certificar de que a nossa cabeça está no seu devido lugar
E voltarmos no mesmo instante ao nosso ofício de sonhador
E de novo sonhar nem que seja só para lubrificar a lembrança
De um amor que lá do seu tempo remoto veio envolto em afeto
A nos visitar careta com cara de doce solidão melada
E quando tudo se acabar com o crédito da eternidade
Iremos para o mesmo lugar destinado à demasia
Dos sonhos sonhados e aos sonhos em potência nunca sonhados.