terça-feira, 31 de maio de 2011

Nossos Eus Dos Sonhos e o Café da Manhã



Café da manhã 1

                            Ainda no embalo de um sonho amoroso
                            No torpor de algo agradável e no mistério
                            Do desejo gerado nesse amanhecer distinto
                            De cutucar e coçar a vontade para a continuidade

                            Vontade de prosseguir no mesmo sonho
                            Ao se procurar cochilar-dormir de novo
                            Vontade de recuperar as delícias maliciosas
                            Que ainda se escondem dentro do nosso eu em gozo

                            Nossos eus dos sonhos porque somos lá dentro
                            Duas vontades que se dão bem e se querem...
                            Embora a geradora dessa onda seja apenas o meu querer
                            Que se revelara naquela noite que acabara de ir embora

                            Esse sonho bem sei que não se completa ao ponto de se esgotar
                            Deixa ele a vontade de nas próximas noites sonhar igual
                            Deixa ele a lembrança de que ainda podemos viver tal e qual
                            Na mínima esperança de um novo e muito criativo sonho
                            Desse porte nos alimentar com a simplicidade de um gozo.
                            Deixa ele                      





Café da manhã  2


                            Há uma hora para se dar no pé
                            Hora em que já se esgotaram
                            Paciência, lucidez, abalos na fé
                            É a hora dos que se evaporaram

                            Como que por milagre das vistas
                            De todos os que se diziam parentes
                            E amigos ou colegas chegados
                            Evaporar assim é das maluquices

                            A mais radical mudança de vida
                            A saída de cena da mesmice
                            Das rotinas sufocantes
                            Das mágoas dos desafetos

                            Quem sabe no futuro os amores
                             Venham a se comportar determinados
                             Por uma etiqueta como essas em códigos de barra
                             Para se levar para casa como mercadorias quaisquer.
  





  Café da Manhã  3

                               Amanhã bem de manhã
                               Aos primeiros raios
                               Aos primeiros cantares
                               Aos primeiros aromas

                               Amanhã bem de manhã a vida
                               Aos primeiros raios vívidos do dia
                               Aos primeiros cantares dos nossos canários
                               Aos primeiros aromas do café, do leite, do lençol ao sol

                               Amanhã bem de manhã a vida ensolarada
                               Aos primeiros raios vívidos do dia a você consagrados, amor
                               Aos primeiros cantares dos nossos canários em seus espetáculos
                               Aos primeiros aromas de café, do leite, do lençol ao sol na janela

                               Amanhã na janela
                               Raios e canários consagrados
                               Cantares vívidos na manhã desdobrados
                               Aromas na manhã com a vida ensolarada
                               Não é muito mel de se lambuzar, amiga?

RASGA I

O poeta disse “Rasga meus versos, crê na eternidade”
              Como que com isso quisesse punir a sua inventividade
              Ao cultivar seus terríveis remorsos por dantes haver dito
              Que “céus não existem, não existe inferno/ o prêmio
              Da virtude é a própria virtude/ o castigo do vício o próprio vício/

              Nesse duelo das suas antigas com as novas convicções
              Misturadas as verdades com as mentiras
              Fica a escrita no papel que não deixa de divergir
              Com os complicados novos e religiosos pensamentos do poeta

              Não lemos o mesmo poema da mesma forma
              Todas as vezes que por ele passamos
              Não colhemos os mesmos grãos do ano anterior
              Afirmam os que semeiam a terra, imaginem os espíritos!

              Quero preferir os versos que o poeta mandou rasgar
              Convicto que estava da sua conversão cheia de mutretas
              Não vou acompanhar esse diabo arrependido nesse chiar
              Que carrega em sua nova sombra rabos e chifres em setas.    

MERGULHOS V

Não abra mais nada para o falso pára-quedista
Aquele para quem você abriu o cândido coração
Além das suas mais recônditas vontades amorosas
Numa entrega de quem almeja só sonhos e liberdade

Não abra mais nada para o falso que canta ardiloso
Pelos cantos das sombras de um entardecer amoroso
A desdobrar o escondido das ingênuas vontades amorosas
Pois há um canto em sua boca que parece injetar veneno poderoso

E inebriar as moças que ainda sonham com príncipes
E acordam num cartório diante de um juiz e sua sentença
Ou numa igreja diante de um padre no palco de um altar
Por essas e outras não abra mais nada para o doce vilão

Tão de mel seus beijos avassaladores e melados
Tão de caramelados seus abraços grudentos, sedentos
Tão de hormônios suas nervuras e musculaturas rijas
Que não convém sem mais indo se lhe abrindo, na cama, no chão,
Ainda mais as pernas, pés descalços e coxas lisas
Sem antes conhecer quem lhe espreita - corpo e coração – talvez a alma
Ainda refém da paixão...as taças vazias, a garrafa de vinho entornada.

MERGULHO VIII

Em tudo há um fundo falso e frágil
Percepções são pinceladas rápidas
Num painel feito no imaginário de ar
As cores se dão nós e despencam em pó

Em socorro dos que têm medo do escuro
Que encobre idéias e sugere aventuras poucas
Temos pensamentos que brilham escondidos
Entre as páginas dos bons livros esquecidos

Por detrás de outros livros de capas duras
Para somente enfeite e deleite de quem não os lê
Sequer se sabe se existe mesmo algo ali escrito
Uma aventura digna desse nome ou apenas

O enigma que decifrado salvaria o dia, talvez o mês
Por que não o ano do leitor que pensa em se matar
No próximo minuto e já carrega o tambor da arma
Com balas que poderiam ser - pela leitura que não fez-
Balas de artificial morango, que sejam sabores naturais...
Balas de goma ou caramelo com chocolate
Balas que não vão lhe furar e dar fim a um mínimo
De inteligência, mesmo esta indigna e indigente
Mas inteligência presente na vida que sabe existir sempre
Uma última esperança, uma fé verdadeira,
Um cafezinho com pão e manteiga de uma caridade
Talvez por derradeiro – para se continuar a viver –
A lembrança, a memória, a recordação de um único
Ato de amor que ressurja do esquecimento e se faça
Presente como o mais puro aconchego.

domingo, 29 de maio de 2011

COISA DE BÊBABO

Coisa de Bêbado
Como pode alguém dizer que está perigando no vazio
Que está a ver navio sumir no horizonte e não quer por marra
Ver que lá daquela linha outros navegantes estão a vir
Para contar suas sensações e folias pelos mares seus amares

Vou lubrificar um pouco as engrenagens musculares desses tediosos
Meus amigos melancólicos que sempre estão de dia seguinte
A reclamar dos efeitos dos excessos alcoólicos e tira-gostos saborosos
Consumidos com voracidade e ganância de faminto pedinte

Há algo mais nesses encontros de bares em bares
Algo que pode beirar o sagrado de tão inebriante o profano
Ou é apenas mesmo coisa de bêbado que idolatra a embriagues
Que se encontra na roda da vida desolado de não se ter mais dó?

Será que o remédio para se curar e não remediar
Tanto tédio que não cansa de entediar de tanto se repetir
Não seria ir buscar no além mar de toda boba angústia por vir
O nadador adormecido que se esqueceu do gozo inenarrável
 De se nadar soberano nas possíveis águas de um novo despertar?   

quarta-feira, 25 de maio de 2011

AVÓ DESTRAMBELHADA IV

“Quero também segurar as suas mãos”
O que penso que penso agora é o que sou agora assim meio
 Que poeta da hora a exorbitar
Daqui a pouco serei o que pensarei esquecido do já pensado
Que deverá ficar prensado entre dois pensamentos já pensados
Enquanto uma fila de pensar não pensado aguardam a sua vez
Vez por outra nem chegam a pensamentos são somente arrepios
Como que a provar a existência dos anjos que nos guardam sorridentes
Outras vezes inspiramos e expiramos e o pensar fica diluído nesse ato
Quantas vezes não achamos que estamos pensando coisas importantes
E depois notamos que só estávamos a expelir apenas fungos do pensar?
Já ouvi dizer de gentes que não pensam porque dizem doer só de pensar
Em pensar qualquer que seja a bobagem exorbitada
E que para não enlouquecerem ficam só respirando os pensamentos
E com isso se livram de pensar pensamentos que são maléficos e doentes
E que se amarram nas gentes que não param de pensar sempre vigilantes
Penso agora que estou disposto a dar também incerto tempo aos pensamentos
Penso aqui nesta praia diante destas águas límpidas vitaminadas de azuis e verdes
Que os meus olhos não precisam pensar nas lágrimas que derramo nesse lindo mar
Por conta da saudade que me arrasta ao fundo do meu sofrido coração
Sem razão de eu nem pensar que já fui ser exorbitado
De alguém distante arrancar de meus olhos as águas que não vem do pensar
Mas das doideiras de quem sabe que só pensamento não é a plenitude de se querer
Preciso abraçá-los e também segurar as suas mãos Luana e Caito, meus amores
Que fazem meus pensamentos prisioneiros nesse pensar de só amar vocês.

terça-feira, 24 de maio de 2011

SELA PARA CAV-HALOS

Sela Para Cav-Halos
Que necessidade é essa de ainda se sonhar que se é herói
Para quando ao se acordar apenas nos sentirmos de bem
Com os nossos desejos que assim nos fazem pensar que
A vida pode continuar a galopar nossos corpos assim selados

Como cavalos que disputam o prêmio para seus donos
Em troca de uma foto no jornal do feriado em que ele
Esnobará o cavalo da baia ao lado como ser inferior
Digno de uma aposentadoria precoce na fábrica de salsichas?

Que necessidade é essa de ainda de se sonhar
Ainda um pouquinho mais no quase despertar
Quando podemos rir de nós mesmos sem qualquer
Constrangimento diante de mil gentes que nos vigiam

Sem censura ou qualquer conselho para uma vida reta
Nesses momentos em que somos os atores em cena
Para os espectadores que só aprovam e abençoam nosso interpretar
Sem saberem que nossa meta é tão somente nova
Energia recompor e com isso ganhar mais vida a nos levar?   

segunda-feira, 23 de maio de 2011

JOGOS

Jogos
O que é mais vazio do que o oco que vai pouco a pouco
Chupando do entendimento a luz que evita em nós o louco
Quem ainda acha que exista cabeça de vento em alguém
Pode ficar certo de que esse “aventorado” não se lembra de mais ninguém

Aquele que foi desligado da tomada e tem o olhar de peixe morto
Aquele que não vive nem mais em pensamento e que foi morar
Na casa do esquecimento por conta da mais consagrada alienação
Nesse viver sem dor ou felicidade, inverna e contraria o fervor da cidade
Na qual as gentes e suas mentes que se formam em solidárias
Esperanças
Não podem deixar de admirar os jogos dos pequenos
A brincar nas mais escandalosas das aberrantes alegrias
São nossas e deles também as solicitações de futuros radiosos
São pensamentos que queremos realizados e não só sonhados
Para isso ficamos assim como os que se salvaram por pouco
Assim como todos aqueles que já se sentiram na real ou em sonhos
Aquela doideira de estar vivo que sentiram todos os quase-afogados   

sábado, 21 de maio de 2011

AVÓ DESTRAMBELHADA III

Avó Destrambelhada III                               (“...Finge tão completamente, que chega a fingir          
Da Banda de Lá                                               que é dor, a dor que deveras sente”. FP)
Não sei se mereço tanta assim mísera desconsideração
Não acho que desmereço tanto assim de qualquer considerar
Meus planos são tão comuns que chego muito lúcida a plagiar
Qualquer inspiração desses poetinhas de fim de semana de plantão
Acho ainda que tudo na vida tem o poder de me incriminar
Meus amores do meu rijo e calejado coração
Não que não sinta saudade das pessoas de quem gosto, não
Sinto o suficiente para me encher de orgulho e isso me basta
Não sou de ficar a lamentar o leite que se derramou pelo fogão
Muito menos aplaudir pelo pão que caiu com a manteiga virada para cima
Já fui boba de ficar sem comer ou dormir por amar demais
Agora que não vou de novo me castigar por amar até de menos de hora em hora
Aprendi a me defender com muitas das armas das astúcias dos outros
E astuciosa agora tenho a coragem da audácia mais contundente para aqui dar
Um termo nesse finalmente, assim de mais confundir do que esclarecer
Digo que não sou assim nem assada
Só porque alguns me chamam de dissimulada
Pode quem quiser ficar a olhar nesta noite por todo esse céu azul
De lua cheia que chega a ser até indecente e se quiserem obsceno
Com certeza ninguém por aqui ou por lá encontrará o meu nome no estrelato
Talvez algum abelhudo encontre como me chamo numa estrela cadente que viaja
 Para o infinito na velocidade da luz de lá pra cá pra lá por todo o firmamento
Talvez essa luz seja de um astro que nem exista mais, só o que dele reluz
E tenha o mesmo registro meu: ser daqui, dali e de lá; ser de fingimento

sexta-feira, 20 de maio de 2011

AVÓ DESTRAMBELHADA II

Avó Destrambelhada II
Diz o samba “pra que possuir um monte de coisas, se ela
Não me dá bola”, e eu fico aqui na minha saudade atolada
Querendo que ela me dê mais bolas ainda porque amada
Bolas que recebi e recebo meio que assim de vez em quando
Vou assinar na primeira linha de uma lista de protesto
Todas as minhas reivindicações abstratas e concretas
Desejos pensados e os que ainda esperam para serem pensados
Não vou tirar essa de letra enquanto não conseguir meu intento
 Vou grafitar as paredes do meu quarto para ao dormir ou acordar
 Saber que sempre os seus nomes ali vão estar desenhados para meu
Máximo consolo e também para me dar forças para aguentar
Mais um dia sem seus beijos e abraços que aceleram meu ser
Meus amores de Floripa que a minha vida engripa e avaria
Enquanto espero vou vivendo de mentirinha com minhas ladainhas
Vou choramingar por todos os cantos da casa e só não subo nos telhados
Porque senão vão pensar que estou por demais desesperada e variada
Para mim chega! Vou chorar nas nuvens do céu hoje mesmo então
Vou mais do que depressa pegar no primeiro aeroporto o primeiro avião.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

AVÓ DESTRAMBELHADA

Avó Destrambelhada
Eu conheço uma mãe de uma mãe
E também uma filha de uma filha de uma mãe
Também conheço o pai de uma filha e sua filha
Conheço também o pai do pai de uma filha da mãe
Conheço ainda a mãe do pai da filha da mãe

Só que a mãe da mãe da filha
Vive quase todo dia a cutucar e catucar a bendita da saudade
Que assim cutucada e catuacada não há de ser nada saudável
Porque fica comichando por dentro o que já se devia ter filtrado no peito
Pois há coisas que devemos como nos enxames não mexer e deixar quieto

Como nas nossas vivências sempre se procura o danado do culpado
Vamos averiguar então de quem é a culpa por esse desalento de doída avó
Essa mãe da mãe que vive menos na paz do que no argumento do tormento
(Bem averiguados então estão todos os atos antecedentes de todos os envolvidos):
Chegamos à conclusão de que a culpa é daqueles dessa nova família
Que estão dos outros a acelerar as batidas de cada abobado coração
Nada mais nada menos do que para o bem geral mesmo que meio irracional
 (---Como cantam lindamente!)
Porém - por culpa só deles - assim ficamos com essa inusitada moral
E olha que eles estão apenas e tão somente na primeira dentição.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Por detrás do tempo

Tudo passa mesmo ou tudo já passou e agora
É de novo rememorado como bobina fora
Isso para que possamos ter a falsa presença do instante
E mais outro instante e assim enganados pensarmos que vivemos

Enquanto contemplamos a fruta que no pé ainda está verde
Enquanto o pássaro passa para conferir a sua madureza
Enquanto não entendemos a nossa e nada da natureza
Enquanto apenas contemplamos em definições nossas e outras ações

Vamos é certo em acerto com o que virá num momento qualquer
Voar no mais longínquo perdido dos traçados
E daí para frente ver nossas energias se engatarem no tempo e no espaço
Enquanto mais uma vez estaremos longe do perfume das flores
Que eram vivenciadas e impregnadas em nossos corpos juvenis

Nossos objetivos mais egoístas descambarão pelo rolar indomado do mundo
E assim sem rédeas poderemos dizer que de todos os amores
Que por mera aventura tivemos
Só um há de ficar conosco no momento da luz definitiva se apagar
Um avassalador amor que de tão verdadeiro fomos obrigados
A esquecer para sempre num passado distante dos abençoados

(...e daí eu falei para ela:
    ---Leia o que acabei de escrever.
        E ela respondeu:
   --- Ah... agora não... vou fazer xixi)

RESQUÍCIOS

Resquícios de Narciso

Ontem as coisas pareciam deslizar em suaves plumas:
Você precisa ser generoso com você mesmo
Eu disse a mim mesmo diante do espelho
De cristal que nitidamente refletia a minha
Melhor imagem na minha melhor hora do dia

Além de generoso você precisa ser compreensivo
Com as suas pequenas e também com as suas grandes
Limitações e assim transformar o seu dia num melhor dia
Quando todos à sua volta reclamam de alguma coisa

Deitado eternamente nessa campa fria sem amor ou ironia:
Você não pode se esquecer de que em você existiu alguém
Que viera ao mundo para ser alguém com um diferencial
As suas resoluções sempre haveriam de dar novo e seguro
Rumo aos acontecimentos que sem você seriam monótonos

Carcomido pelo tempo meus restos de cálcio ainda resistem:
Hoje é a minha alma quem contempla meu retrato desgastado
Numa lápide de mármore que sei lá se é de Carrara ou de onde é...
Não são dignos os que me enterraram aqui neste pobre cemitério
Como qualquer mané
Eu pedira para ser cremado e as cinzas jogadas no mar
O único lugar apropriado para meus restos pela eternidade abrigar.
Não há morte que consiga dar conta dos meus desejos não realizados.

PRAZERES

Prazeres

Inspirar e expirar com toda a paixão entre os braços
Com a língua entre os dentes a perpassar neles lambidas
Sábias e esperançosas do encontro salivar da boca
Que se aproxima e se oferece agora como quem devora

Esses beijos e abraços raros como os momentos de felicidade
Podemos desfrutar de vez em quando e só quando surpreendidos
Nunca planejados ou realizados logo após um sonho tenso
Quando os desejos já estão arrefecidos e a alma apaziguada

Quando de repente somos acordados de nós mesmos
E nos damos conta de que estamos num idílio ardiloso
E mais nada podemos fazer como resistência fingida
Aonde agora é só loucura prazerosa e desmedida ferocidade

Nossas vontades foram superadas pelos nossos instintos
Nossos instintos soltos como o vento a bater as venezianas
Que parecem aplaudir os que se encontram em estado de felicidade
Fica na memória uma janela fechada que escondia
As travessuras juvenis, a liberdade provisória dos desejos...
E que agora escancaradas e ruidosas festejam o gozar incontido
Apenas na duração de mais um gozo.

SER SONHADO

Ser sonhado


Nas veias senti o borbulhar da mais doída saudade
Foi assim como acordar de um sonho dentro de um sonho
E algo a avisar o tempo todo que estava ainda a sonhar
Cada mínima parte do corpo se descabelava em incontrolada emoção

Cortinas se abriram ao ar livre e um teatro surgiu esplendoroso
E sons de flautas ecoaram no mesmo momento em que os atores
Com máscaras dramáticas assumiam posições pelo espaço cênico
Para então das suas marcações anunciarem as intenções da representação

O que se veria seria o trágico/cômico da vida de cada espectador
A síntese anunciada com tanta pompa era para que cada ser
Que ali estivesse presente se sentisse como parte visceral da peça
E aceitasse as dezenas de maluquices que os artistas encenariam

Nas veias senti o deslizar de um sedativo que amenizava a saudade
Que não mais doía, mas fazia cócegas de fazer tremer o corpo todo
A partir de então eu falava as falas dos demais atores que agora
Eram apenas máscaras a contemplarem indiferentes
O meu desempenho trágico/cômico. 

ADEUS senhor farewell

Adeus senhor farewell
Arrasto e deixo rastros de minhas correntes
Imaginárias que trazem e se traduzem de pesos
Advindos das mil almas de que fui composto
E aqui posto a desfilar suas agruras numa passarela de fresco cimento
Os meus pés se arrastam por demais lentos os poucos
Metros que ainda tenho que lutar e muscular para vencer
Matérias e encostos
Talvez venha a quedar muito antes de meu louco e mais secreto
Atônito desejar se diluir em satisfação ou gozo

 A argamassa segue a secar e mais lento e lento se faz meu sofrido caminhar
Não estou compromissado com ninguém de carne e osso nesta hora
E talvez por isso mesmo meu ânimo seja de baixo moral
 Pois não ouço mais as vozes de forte incentivar e vasta vibração
Sequer ouço a mim mesmo a fungar de expelir fumaça
Nesse frio que se faz nesse exagerado inverno
Que inverte meu querer em mais uma de suas artimanhas
Só por isso e acho demais até me esqueci de pesar na consciência
As suas mentirosas promessas de me consolar a cada esperança perdida
E me levar a viver a cada pensamento como um momento
Que a todas as gentes o esperar espeta
E a pensar naquela abertura – farewell - a porta de saída para a vida
Além da porta aberta

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ÁGUA DE BEBER

Água de Beber
Fiquei apurando e fincando os meus ouvidos
Na voz que vinha da janela ao lado da mangueira
Em que eu trepado me dependurava a chupar guloso a manga
Que imaginário é esse que salta do alto daquela árvore para o chão da
Minha lombrigal infância que hoje poderia indignar muitas
Das crianças que sobrevivem nos enlatados dos apartamentos
Cercadas de asfalto e flores artificiais em jardineiras
De ferro e cimento?
Ouvi lá do alto daquele verdejante das folhas
A voz da professora que dizia:
Que há uma outra lógica!
Que há uma outra forma de pensamento!
Que lá onde eu sou eu não posso me entender ou pensar!
Que para me aproximar assim de nem relar das obscuridades
E suas fantasmagóricas obscenidades  
Devemos entrar em guerra contra nós mesmos!
E isso só para vislumbrar o abismo a ser explorado!
Não tenho mesmo que me sentir um coitado?!
Um desse seres que desgraçadamente querem de verdade
Que o mundo pare para eles descerem de uma vez no nada?
Que desejos são esses que tanto se deseja ter
E que parece aos vivos em suas lidas manter
E que uma vez possuídos se tornam água salobra
Inadequada para beber?
  

domingo, 15 de maio de 2011

ESPELHO

Espelho

Para não ficar louco
É preciso sonhar que se está sonhando
Ao acordar levantar o corpo para abrir
A janela próxima e respirar a luz

Para não enlouquecer
É preciso lavar o rosto
E enxugar a imagem no espelho
E deixar o suor do verão na face de carne

Para não pirar
De vez é preciso que a marca do corpo
Deixada no lençol da cama seja removida
Chacoalhando o fino pano no ar de fora do quarto

Mas para que a loucura não se instale de vez
No ser que parece ainda duvidar da existência
É preciso que o primeiro som da nossa voz sem medo
Diga em tom bom que o louco ficou aprisionado
De cara limpa no espelho e ali ostenta esse segredo




OLÁ

OLÁ
Olá, Pessoal
Olá Pessoal
Olá, Pessoas
Olálalá, Peçonhas
Olha lá Pessoa
Que olha para as próprias pessoas
Com o olhar pessoal invertido
Nunca por demais contido
Quisera de tanto mar português
Comprados de grão em grão cada quimera
Sonhos incorporados de corpo e alma
Em profundos mares, de vez tragados 
Não se vê de um cais do mesmo jeito de antes
Não se vê como se via anteriormente à Ode aos Navegantes
Minhas tolas saudades passaram a ser grandiosas
Quais fogos de artifícios, mui, mui luminosas
Vou, portanto, tolamente, diante do próximo mar
Respirar fundo, encher o peito e gritar e berrar e berrar
Nas mil coisas da Terra meter o nariz
Só porque se quis ora triste ora meio que feliz 
Isso sem sair da terra firme do cais do porto mínimo natal
A rodar o mundo como gira o pião na mão de um menino
Na terra por onde passa o mundo no seu quintal.


IMAGEM

Imagem
O que faço com essa sua imagem envolta em ternura
Que me surge ao amanhecer e me dá água na boca
Ao ver seus olhos enormes diante dos meus em passione
É só por causa desse passado tão distante que estava escondido no perdido?
O que faço com essa sua imagem que me aparece
Como uma fantasia bem-vinda ao entardecer
E que ao se aproximar demais de mim que me arrepia todo
Ao sentir a tua boca carnuda a desrespeitar qualquer pudor?
O que faço com essa sua imagem que já na noite de sábado
Quer agora pecar sem pensar como antigamente na confissão
E o conseqüente comungar logo no domingo de manhã
Para com isso apenas tirar a culpa dos excitantes desejos
Dos calorosos pensamentos da véspera?
O que faço com essa sua imagem que persiste e insiste
Em ser de uma falsa languidez que tornam imbecis minhas quaisquer convicções?
Responda o que faço com essa sua imagem de corpo inteiro pelo meu dia
Que em todos os segundos em que ela marca sua presença aciona safada
 As batidas do meu coração como cúmplice de um prazer tão secreto e que por vezes assim tão indiscreto que não se dá a isso sequer um nome:
Na caverna da covardia essa imagem que me avassala a vejo sempre
De profissional prontidão, de fria tocaia.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

BAMBOLÊ

Bambolê 
Dança em qualquer lugar
Dança no ventre
Dança do ventre
Dança na velhice para zombar
Da morte próxima que dança rondando
Zombando
Dança a dança clássica e continua a respirar com leveza e graça
Como pode dançar a capoeira sem largar a copo cheio de cachaça
Dançam as crianças no chão de terra e nos sonhos de algodão doce
Dançam as aves nos céus em louvor aos seus amores e os meus
Dançam e descem dançando aos infernos os sem qualquer esperança
Eles não tinham o que deixar nem no portal dos capetas
E dançam os dinamitados nas pedreiras por falha nas espoletas
Dançam o miudinho os que se aventuram sem serem comedidos
Dançam mais ainda os que se diziam amados por todos os lados
Dançam porque dia serão pela traição e dos sonhos acordados
Dançam porque o que era para ser algo próximo da felicidade
Não se consumou porque não estava à venda nas lojas neste mês
Dançamos porque a única verdadeira liquidação de que não sabemos
Está anunciada num lugar inacessível da nossa alma que dançou de vez