Sem Marras
O homem da madrugada da noite passada acorda só para ter a certeza
De que não sonha mais com a amada namorada que desafiava sua esperteza
O homem das madrugadas que vivia em altos êxtases e seus frenéticos sabores
Acomodado agora está a olhar e a velar ali a seu lado adormecida e a sonhar
Aquela que é hoje a síntese dos seus amores e que domou a sua astúcia
Ele que já podia viver da fama que se espalhara como a mística de uma
Chama sagrada
Ele que agora se pensava e se dizia que era um guerreiro em repouso
Ele que por amar demais a essa mulher agora ao possuí-la tinha medo do tédio
Ele que jamais se entregaria ao viver burguês agora parecia desfrutar mês a mês
Desse “indiscreto charme” que tinha o poder de um vício e com isso anestesiar
Seja que rótulo tivera: o de revolucionário, o de rebelde sem causa, o de aventureiro
O de ode seja qual for a ordem do espírito poético do momento de existência plena
Ele agora não se enxergava mais fazendo caras de marras no espelho pelas manhãs
Caras de marras que teciam as fortes cordas das suas próprias e impróprias amarras
Ele agora parecia sentir como reais os músculos da face relaxarem satisfeitos
Porque seu corpo parecia se dar conta de que o viver do trabalho que extenuava
Se compensava no ato que o fazia se reencontrar com o afeto que nele revivia
Algo que estivera nele escondido, talvez adormecido, quase que de vez perdido
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