sábado, 25 de junho de 2011

Gotinhas para a Lulu III

Gotinhas III

Acordei essa manhã e fui logo logo procurar
 por toda a nossa casa aquela menina
que por aqui vivia à nossa vida apimentar
Não a achei atrás das portas escondida
Procurei então embaixo das camas
e nada da menina estar  por lá também enfiada
Sob as camas não achei nem pijamas sem gente
 ou esquecido qualquer dente de leite
Só então eu me lembrei que a menina que procuro
havia outro dia viajado com seus pais e o irmãozinho para a Bahia
E eu fico aqui-agora só lembrando dela tanto no claro como no escuro
Acho que vou agora telefonar e deixar minha paixão em dia com meu amor
(Enquanto a vovó mais doida e apressada vai voando a jato para Salvador
Com o coração na boca e um presente em cada mão
O vovô não vai porque tem paúra de avião)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Gotinhas II

Gotinha para a Lulu (II)
U U U
AI QUE SAUDADE DA LULU
A A A NADA TUDO BEM
A VOVÓ NILCE SÓ NÃO ANDA DE QUATRO
COMO UM PATO QUEMQUEM
PORQUE QUATRO PATAS
UM PATO NÃO TEM

quinta-feira, 23 de junho de 2011

gotinhas I

gotinhas para a LULU (I)

Tic tic tic tic tic tic e é só de tic o som que ficou
Não tocava mais o despertador pelas minhas manhãs
O tac do tic-tac por conta de uma mola que quebrou
Que de tanto amolar acho que se chateou de si mesma
E parou de o tac tactar
Hoje ao acordar joguei o chato do tic que estava a tictar
 Pela janela do meu quarto pra lá fora ele se espatifar
A janela estava com a vidraça fechada
E na batida o tic-tac voltou a tic-tactar
Minha nossa! Ele voltou para novamente minha vida chatear
Com seu tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac
Não sei até quando vou suportar

segunda-feira, 20 de junho de 2011

TENTATIVA

Tentativa
Hoje vou ensaiar um personagem cômico
Daqueles que o próprio choramingar é irônico
Vou tentar uma cara pintada com as cores primárias
Muito popular mesmo sabendo que o popular já é muito
 Entre os muitos artistas: o vermelho, o azul e o amarelo
Isso só para dar muita luz e brilho ao meu novo semblante
Tudo combinado com resoluções bem sumárias
Sumário será o desenho de uma lágrima branca despencada na lateral do queixo
Quero a minha testa pintada de azul para combinar com o céu desta cidade
Quero o amarelo para que a sorte venha num baú cheio de moedas de ouro
Quero o vermelho para que a cor do sangue se veja por fora da alma
Pintarei de amarelo o entorno dos olhos e das orelhas
Quero depois ver e escutar ao mesmo tempo o músico e seu violão
Para cambalear pelo palco do circo num desenho de arco-íris
Na busca do ouro nessa pintura com tintas de luzes no céu
Depois disso pintarei de vermelho em volta da boca e do nariz
Tudo se derramando como o fluxo de encanto infantil de um chafariz
Com roupas de retalhos com todas as cores possíveis de se amealhar
Darei ao meu público todo o possível das risadas descompromissadas
Quando o espetáculo se findar – no meu camarim sozinho – dócil e conformado
Vou poder chorar e borrar com lágrimas de verdade a minha maquiagem
E no velho espelho e suas trincas e rugas das tantas viagens pelo mundo
A minha camuflagem toda distorcida pela mais infame das saudades
Dou-me um tempo de agonia profunda e respeitoso silêncio
Respiro porque assim manda a minha incompreendida natureza
Resta agora o meu não rosto uma não cara uma singularidade sem o perfil
Que possa recordar de todos os demais homens sequer suas máscaras
Mesmo a mais bela das recordações mesmo a mais vil
 Algo que possa associar a minha personagem sequer mesmo
 A seus mais falsos semblantes
 Toca o sinal e eu me recomponho e entro no picadeiro
Às gargalhadas

sábado, 18 de junho de 2011

OCASIÃO

Ocasião
Por ouvir falar ardilosas
Falas de verdade verdadeiras
Outras falas de mentira mentirosas
Falas nítidas e outras escabrosas
Falas dignas das rameiras
Tantas falas francas e virtuosas de santas freiras

Essas coisas só poderiam dar num encanto
Desses que deixam gente e o pensar das gentes todos tontos
Na prova de que rodopiamos na hora da nossa estafa
Sóbrios a enrolar em nós mesmos por dentro
E fazermos por fora do nosso corpo algo meio pião
Algo que nos dá a sensação de se voar por atração pro chão

Uma voz miúda e sonora de som de sino abafado
Parece dizer bem lá no fundo do nosso ouvido
Que há uma saída para longe daquela confusão patética
Mas exige um esforço em troca dessa ocasião escalafobética
Basta um olhar fingido para um imaginário abismo
Um precipício sem começo nem fim
Dentro do meu eu, além de mim.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

NE ME QUITTE PAS

Ne Me Quitte Pas (Jacques Brei)
Não Me Deixes (Tradução Maysa)

Não me deixes,
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquece o tempo dos mal-entendidos
E o tempo perdido a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes,
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Te inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.

Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes,
Não me deixes.
Quantas vezes não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo

terça-feira, 14 de junho de 2011

CABEÇA E ALHO

Cabeça e alho
Cabeça de alho
Cabeçalho
Quem alcança sempre esperou
Qualquer que seja a vã glória
Talvez a luz do sol pela via da clarabóia
Talvez um sonho que tardiamente se realizou
O tempo come também pelas bordas
As mais lúcidas esperanças
E por não poupar qualquer ato derivado da arte da ilusão
Pode dar-se ao luxo de fincar a razão como um mourão
Bem fincado no chão mais bruto ou no mais refinado assoalho
Ou ainda pode de vez remeter ao mundo de uma segunda criação
Aquele sem retorno do mergulho mais profundo na alucinação
Em lugar da cabeça uma grande cabeça de alho

segunda-feira, 13 de junho de 2011

JORNADA

Jornada

Cada mañana digo que el día será distinto
Pienso que será una jornada de realizaciones
¡Qué alegría acumulé durante la noche!
Tranquilamente podrá gastarse en las muchas horas
Que seguirán antes del anochecer que dulcifica o sala las esperanzas

Imperceptible, con la trama de las misteriosas sombras
Podré cosechar las flores del jardín público
Sin que sea visto por los que cuidan de las bellezas colectivas

Muchas flores, (una brazada de ellas), que levaré en disparada
Para la casa y las depositaré una a una ante tu
Imagen seductora en el jarro partido en la mesita del fundo
Quedaré por un tiempo en silencio inmóvil ante ese simple
y modesto altar
Para que nuevamente pueda llorar todas las lágrimas
Acumuladas en más ese día de vacío y metáforas comunes

Solo entonces voy a mirar mi perro
Acostado a la puerta
A la espera de mis manos en su espalda
Después de eso, solo entonces, puedo mirar los ojos de mi perro
Para sentir luego que no tengo más razón y alma

Pero, soy despierto del transe con una mordida
El perro no desiste de seguir siendo viviente
Para que yo sienta, quizás, un rato de la vida real
Y clava diente a diente
Después de eso, puedo mirar conmovido en los ojos de mi perro amigo
Y entrar en la noche en un sueño de juntar
Nuevas alegrías para soportar la rutina de los
Prójimos y insondables días  
                                                    (Versado para o espanhol por Márcia I. Souza)

domingo, 12 de junho de 2011

Pingaiada

Pingaiada
Quase vias de fato no botequim
O fio desatado esclarecia que o desafio
Fora um grande equívoco
Daqueles de dar remorso em desnervado
Quanto mais em desarvorado

As vias quase chegaram aos fatos
Não fora alguém sugerir
Mais um trago
Antes do conflito prosseguir

A idéia fora providencial
Pois os ânimos arrefeceram
E os antagonistas até esboçaram
Brindar no ato de levar a bebida à boca

Depois disso alguém do bem do humor
Houve por especial talento a tudo apaziguar
Ao contar uma anedota de corrupto irreversível
Que  nesse sem retorno era como a esclerose múltipla

terça-feira, 7 de junho de 2011

QUASE

Quase-Quase
Vamos brincar de finge-foge
Em quase tudo quase finge
De quase tudo quase foge
Finge que tem quase fingida sorte
Foge da noite quase sem estrelas
Finge que tem quase sentido ódio
Foge dos ungidos que quase querem absorvê-lo
Para quase absolvê-lo
Finge que se encanta com as luas cheias
Foge com medo dos que uivam para ela
Finge que tem um amor de quase toda a vida e sua jovem imagem
Num guardar secreto de nunca deixar o dentro do coração
Foge dos amores passageiros que pagam suas passagens
Finge que do outro lado do mundo tem uma alma tão bela
Quase que irmã gêmea da sua de tanto que lhe aparece nos sonhos
Foge num correr desembestado das quase bestas de plantão
Finge ter gosto de esteta por fingir poetar como quase poeta
Foge de quem não finge como finge que sofre com o próprio
Quase fugidio fingido quase impensado pensamento sementeiro
De quem sabe que o quase um dia não escapa do derradeiro

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Recadinho (Nada Desprezível)

Recadinho (nada desprezível)

Na pousada de tanto posar
Repousa agora a menina
Que em descanso das tantas poses
Dorme e sonha com qualquer brincar

Com qualquer brincar de comidinhas
Com qualquer brincar em pula-pula
Como pode não sonhar a menina busca-pé
Com uma bela duma macarronada ao sugo?

Como pode a menina que gosta de saltar e raspar panela
As suas energias não recompor nessa dormida da hora
Todas as vezes em que vejo essa menina pela janela
Vejo que ela está pulando de cá pra lá como se fora bola  

Cadê a menininha que gosta muito de brincar com outras crianças
E também agora com a minha saudade e as minhas lembranças
Está ela numa pousada o tempo inteiro só a comer e a repousar
Ou está ela pelas praias a nadar e a correr para não engordar?

sábado, 4 de junho de 2011

Céu Azul de "brigadeiros"

Céu Azul de “brigadeiros”

Cadê o meu amorzinho?
Fiz pão de queijo para você, sabia?
Mas como você não estava aqui eu comi
Junto com a vovó Nilce, o tio Lu e a Rose

Fiz lasanha para nós, sabia?
Mas você não estava aqui eu comi
Junto com a vovó Nilce, o tio Lu e a Rose

Fiz um desenho do FRUFRU
Mas como você não estava aqui
Eu mesmo o pintei de vermelho, amarelo e azul

Depois disso fiquei vermelho de tanto rir
Fiquei amarelo de tanto comer
Fiquei depois azul de tanto olhar para o céu
Mais azul ainda fiquei ao olhar nos olhos azuis da vovó Nilce
Uma sua enorme saudade de tom azulado e foi então nessa trama
Que me joguei
Só para tentar agora enganar a nossa grande e azulada saudade
(Digamos assim de vivaz intensidade em sua azulidade)
Que veio a mim do todo azul o afeto do nosso amorzinho que quero não nos esqueceu
É por isso que eu digo de bom grado que o azul que indica um bom dia de vivacidade
É amar esse seu muito pessoal azul voraz de vida que também é muito o mesmo igual
Azul que o nosso
o meu azul 
o azuis da vovó Nilce
o azul do tio Lu
e da Rose tudo azul

sexta-feira, 3 de junho de 2011

NO BOSQUE

No Bosque
Tem gentes que tem muitas saudades e saboreiam disso
Tem gentes que tem só remorsos a encher as cabeças
Saudades boas ou más dão novas cores e novos fôlegos ao vivo
Enquanto os remorsos parecem que são mortes e suas sentenças

Há suspiros que inflam os nossos corpos deles até quase flutuarem
Outros, no entanto, de quando em quando parecem beliscões
Tudo o que infla se parece com a liberdade que almejam os balões
Aqueles outros nos ferem por fora e por dentro de torturarem

Fui um dia com essas parcas sabedorias buscar a opinião dos loucos
Que habitavam num bosque de eucaliptos que deliciavam esses lunáticos
Quem pode dizer qual a diferença entre as saudades e os remorsos
Que atacam as muitas gentes que vivem fora destes ares aromáticos

Aqui respondeu logo o primeiro que encontrei ali de ponta cabeça numa árvore
Aqui eu posso ficar assim muito tempo sem respirar e sem pensar
Sem pensar, argumentei, até deve ser ótimo para um doido de carteirinha
Mas, sem respirar isso pode até de todas as dores esse pobre coitado livrar

E é claro desta vida para sempre aos campos eternos muito em breve o levar
O homem, ainda de cabeça para baixo, assim a mim me respondeu:
O segredo de você não pensar é que nenhum falso amor vem te incomodar
O segredo de você não respirar é que quando você respira é tão bom como amar.     

quarta-feira, 1 de junho de 2011

QUEM É?

Quem é? Quem é, Lulu?
                 I
Qual é aquela avó, Lulu?
Que reclama do frio só porque está gelado
Que reclama do calor só porque está quente
E se a temperatura está agradável e amena
Inventa um logo um novo problema
Pelo sim e pelo não
Ela liga logo para a tia-avó Miena
Para encontrar a solução
Quem é a doida, Lulu?

                 II
Quem é aquela avó, Lulu?
Que se você está a rir
Ela gosta de se divertir junto também
Se você está a chorar
Ela diz: não chora que te quero bem!
Quem é ela, Lulu?
                III
Qual é o avô, Lulu?
Que tem medo de ver você
Numa brincadeira se machucar
Esse avô é muito medroso
Ou só tem cuidados por te amar?       
Quem é esse avô, Lulu?
                  IV
Qual é o avô, Lulu?
Qual é aquele avô que é do bem e bem velhinho
E que vive bem lá na Bahia do majestoso Pelourinho
Ele é aquele avô que acorda sempre bem de madrugada
Para viver bem mais tempo com a sua alma bem acordada
Quem é esse avô do bem, Lulu?

                  V
Qual é aquela tia, Lulu?
Qual é aquela tia toda sorridente
Que vive a vida cheia de amizade
Ela não só sabe ser amiga-presente
Como sabe cativar toda essa gente
Quem é essa tia, Lulu?

                 VI
Qual é aquele tio, Lulu?
Qual é aquele tio que torce para um time do Rio
Ele é aquele que é por “quase” todos muito querido
Mas como você pode ver ninguém é perfeito
Nem “todos” desta lista são de admirar um flamenguista
Quem é esse tio, Lulu?



                 VII
Qual é aquele tio, Lulu?
Qual é aquele outro tio muito também querido, Lulu
Que vive a pensar no que o outro está a pensar
Ele é de muito boa alma e gosta muito de leitura
E trabalha adoidado perto da praia numa prefeitura
Quem é esse tio, Lulu?

                VIII
Quem é aquela tia-avó, Lulu?
Quem é aquela tia-avó que vive às crianças ensinar, Lulu
Ela sabe das muitas das artes que nossos espíritos vão alimentar
Com ela você vai aprender a ver o mundo mais colorido
Pois quem não sabe música ouvir pode acordar com dor de ouvido
Quem é essa tia-avó professora, Lulu?
                IX
Quem é aquela tia-avó, Lulu?
Que manda para a Luana e o Caito um poeminha
Escrito com as letras dos seus nomes de todo coração
É ela uma tia a quem a vovó Nilce muito ama
Mas para as duas você é quem é a verdadeira adoração
Quem é essa tia-avó, Lulu?

                  X
Quem é essa pessoa muito querida, Lulu?
Quem é essa mulher que gosta muito de você, Lulu
Ela já fez comida gostosa para você, lembra do feijão?
Ela sempre se lembra de você comendo lasanha e pão
Ela é para você nunca se esquecer
Ela gosta muito de criança e muito e muito de você
Ela disse que vai preparar muitas coisas gostosas para você comer
Quem é ela, Lulu?