Tentativa
Hoje vou ensaiar um personagem cômico
Daqueles que o próprio choramingar é irônico
Vou tentar uma cara pintada com as cores primárias
Muito popular mesmo sabendo que o popular já é muito
Entre os muitos artistas: o vermelho, o azul e o amarelo
Isso só para dar muita luz e brilho ao meu novo semblante
Tudo combinado com resoluções bem sumárias
Sumário será o desenho de uma lágrima branca despencada na lateral do queixo
Quero a minha testa pintada de azul para combinar com o céu desta cidade
Quero o amarelo para que a sorte venha num baú cheio de moedas de ouro
Quero o vermelho para que a cor do sangue se veja por fora da alma
Pintarei de amarelo o entorno dos olhos e das orelhas
Quero depois ver e escutar ao mesmo tempo o músico e seu violão
Para cambalear pelo palco do circo num desenho de arco-íris
Na busca do ouro nessa pintura com tintas de luzes no céu
Depois disso pintarei de vermelho em volta da boca e do nariz
Tudo se derramando como o fluxo de encanto infantil de um chafariz
Com roupas de retalhos com todas as cores possíveis de se amealhar
Darei ao meu público todo o possível das risadas descompromissadas
Quando o espetáculo se findar – no meu camarim sozinho – dócil e conformado
Vou poder chorar e borrar com lágrimas de verdade a minha maquiagem
E no velho espelho e suas trincas e rugas das tantas viagens pelo mundo
A minha camuflagem toda distorcida pela mais infame das saudades
Dou-me um tempo de agonia profunda e respeitoso silêncio
Respiro porque assim manda a minha incompreendida natureza
Resta agora o meu não rosto uma não cara uma singularidade sem o perfil
Que possa recordar de todos os demais homens sequer suas máscaras
Mesmo a mais bela das recordações mesmo a mais vil
Algo que possa associar a minha personagem sequer mesmo
A seus mais falsos semblantes
Toca o sinal e eu me recomponho e entro no picadeiro
Às gargalhadas
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