quarta-feira, 28 de setembro de 2011

HOJE EU NÃO SONHEI

Hoje eu não sonhei
Hoje eu não sonhei ou só não me lembro dos sonhos que sonhei
Dos sonhos de ontem eu não me lembro mais o que sonhei
E se amanhã eu também não me lembrar dos meus sonhos
Poderei me perguntar se ainda estarei vivo por inteiro
Antes de nascer vivíamos nos sonhos de alguém que sonhava a gente
Quando fizermos a viagem para morarmos na morada do sempre
Aqui deixaremos nos sonhos de alguém um resto da nossa imagem
Que não se corrompeu e se cristalizou em sonhos recorrentes
Talvez de um amor na adolescência que se fixou apenas na contemplação
Desses amores - sabe você se o vivenciou - que nos deixaram a levitar e
 Orbitar como se fossemos capturados por poderosas emanações
Provindas da essência das flores que cativam por seus odores irresistíveis
 Não nos basta apenas o desejo, a vontade de sonhar
É preciso sonhar nem que seja num cochilo mal sucedido
Que nos dá um baque brusco na cabeça como se ela fosse rolar
Decapitada pela lâmina invisível daquela que nos espreita a todo instante
Essa é a hora de se certificar de que a nossa cabeça está no seu devido lugar
E voltarmos no mesmo instante ao nosso ofício de sonhador
E de novo sonhar nem que seja só para lubrificar a lembrança
 De um amor que lá do seu tempo remoto veio envolto em afeto
A nos visitar careta com cara de doce solidão melada
E quando tudo se acabar com o crédito da eternidade
Iremos para o mesmo lugar destinado à demasia
Dos sonhos sonhados e aos sonhos em potência nunca sonhados.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

MANOBRAS ETÍLICAS

MANOBRAS ETÍLICAS

As duas mulheres conversam em voz muito alta no banco da frente do ônibus em que estou a caminho de casa de volta de mais uma cervejada com os amigos de sempre. Uma delas diz que a Neusa deu para beber. A outra retruca perguntando irônica se na verdade a Neusa não bebeu para dar. A primeira, chamada pela segunda de Mirtis, resolve esclarecer a questão de “dar para beber” e “beber para dar”. E diz para a outra que se chama Doroti que no caso de “beber para dar” pode ser por vários motivos, dentre eles dois estão na cara: ou pode ser para criar coragem devido à timidez ou porque ela tem raiva da periquita e assim bebendo ela entrega a perseguida sem nenhum remorso momentâneo. Pode ser, concorda a Doroti. Agora, no caso de “dar para beber”, prossegue a Mirtis, pode ser que no caso como o da Neusa a pessoa começou assim de repente a beber e acabou por ficar viciada e agora sofre com as tristes conseqüências a que todo alcoólico é levado. Mas, também pode ser que “dar para beber”é quando a pessoa, não sei se é o caso da Neusa no momento, a pessoa dá para poder beber, assim como a outra pessoa que vai com ela paga a bebida, entendeu? Só que também pode já ser algo mais grave de tudo isso que é quando a pessoa dá e cobra para dar e depois gasta o dinheiro com bebida e até outras coisas que endrogam o espírito, sabe como é, né? Não, não sei, diz a Doroti. E a Mirtis lasca na cara da Doroti. Desempregadas, assim como nós. Precisam comer ou sustentar o vício, amiga. Agora entendi, diz a Doroti. Eu desci do ônibus e vi que lá na sua janela a Mirtis continuava a falar. Pensei  nas milhares de mulheres que como a Mirtes vivem o seu quotidiano numa barbárie miserável  e que, apesar disso, “criam e inventam o seu próprio universo moral”. Não é para se admirar?

Umbigadas

(Ah! quis?! E agora?!)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

DUELO

Duelo
Assim pelas vias bifurcadas do meu ser sem as máscaras
Então agora despojadas por força de um ritual apenas interior
Sem mais finos saberes e apenas com a intensidade da luz de um vaga-lume
A matutar desafios escondidos nas escolhas sem reflexão
 Vejo-me a arbitrar um inusitado duelo por dentro de mim
De um lado lá estava todo paramentado de penas coloridas
O meu eu que nunca fora além de si mesmo contra o outro eu
Que sempre se julgou além do bem e do mal na maior cara-de-pau

Nesse duelo os conhecimentos e as emoções foram subjugados pelos desejos
Que a ambos debilitou a tal ponto de que eles a cada embate de tal forma
Se diluíam como esses vapores que observamos na solidão das frias manhãs
No bafo diário que não consegue disfarçar o próximo fim da jornada da vida 
Em que assim sozinhos somos visitados por fantasmas vindos dos passados
Mais remotos muitos deles que não vivemos, só herdamos por graça e desgraça
Da própria e imprópria existência camuflada sempre pelas imitações mais bizarras
Esse duelar não se resolve nunca e eu fico cada vez mais “cabrêro”
Por não conseguir me desentupir dessas competências que fingem libertar
Mas só escravizam porque se matam por matar diante do nosso delírio presente
que está ali a tatear, a escutar, a ver, a degustar e a cheirar a lembrança 
Das mulheres com quem convivemos na nossa tão pura e irreal juventude.  

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O MANIFESTO E O LATENTE

O manifesto e o latente

Eu poderia chamar isto aqui de sonhos de uma noite
De primavera ou o acordar de quem sonhou acordado
Pensei que você me prometera manhãs radiosas
Com cheiro do perfume dos jambos e das rosas
Pensei que naquela noite em que nos despedimos
Num forte abraço que ali nosso futuro selávamos
Daquela vez fiquei a esperar acordado o amanhecer
Acho que porque era a minha primeira primavera
Diante das coisas novas do amor que estava a conhecer
Fiquei a pensar que você muito me quis e desprezei
Quem até então me quisera de amor ou mesmo paixão
Mas tudo só ficou por isso mesmo na onda do livre imaginário
De um único dia em que em mim baixou essa fantasia
E que ainda hoje debocha do meu ser de ser lá tão otário
Em acreditar naquele tempo que se podia pegar com as mãos
E levar ao coração o que um sonho sorrateiro e sublime com você
Paria