sexta-feira, 16 de setembro de 2011

MANOBRAS ETÍLICAS

MANOBRAS ETÍLICAS

As duas mulheres conversam em voz muito alta no banco da frente do ônibus em que estou a caminho de casa de volta de mais uma cervejada com os amigos de sempre. Uma delas diz que a Neusa deu para beber. A outra retruca perguntando irônica se na verdade a Neusa não bebeu para dar. A primeira, chamada pela segunda de Mirtis, resolve esclarecer a questão de “dar para beber” e “beber para dar”. E diz para a outra que se chama Doroti que no caso de “beber para dar” pode ser por vários motivos, dentre eles dois estão na cara: ou pode ser para criar coragem devido à timidez ou porque ela tem raiva da periquita e assim bebendo ela entrega a perseguida sem nenhum remorso momentâneo. Pode ser, concorda a Doroti. Agora, no caso de “dar para beber”, prossegue a Mirtis, pode ser que no caso como o da Neusa a pessoa começou assim de repente a beber e acabou por ficar viciada e agora sofre com as tristes conseqüências a que todo alcoólico é levado. Mas, também pode ser que “dar para beber”é quando a pessoa, não sei se é o caso da Neusa no momento, a pessoa dá para poder beber, assim como a outra pessoa que vai com ela paga a bebida, entendeu? Só que também pode já ser algo mais grave de tudo isso que é quando a pessoa dá e cobra para dar e depois gasta o dinheiro com bebida e até outras coisas que endrogam o espírito, sabe como é, né? Não, não sei, diz a Doroti. E a Mirtis lasca na cara da Doroti. Desempregadas, assim como nós. Precisam comer ou sustentar o vício, amiga. Agora entendi, diz a Doroti. Eu desci do ônibus e vi que lá na sua janela a Mirtis continuava a falar. Pensei  nas milhares de mulheres que como a Mirtes vivem o seu quotidiano numa barbárie miserável  e que, apesar disso, “criam e inventam o seu próprio universo moral”. Não é para se admirar?

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