Sussurros 1
Há uma alma que rodeia as nossas almas
Ela tenta ser
Não sendo
O elo entre nossas possibilidades
Não um elo perdido
De irreparável coisa diluída no ar
Mas algo que engraxa nossas carcaças
De dar luz e brilho aos nossos sentimentos
Nas nossas noites de profunda e tristonha solidão
Naqueles dias em que o universo é algo impensável
E as mínimas coisas são monstros ameaçadores
Nesses momentos de medo e arrepio nas nossas almas
Do nada como se fora uma terceira natureza
Um sopro perfumado de repentinamente embriagar
Surge como que um espírito libertador de traumas
E recoloca nossos desejos em jogo de novas tensões
E nos provoca novo fôlego e nova vida e novo respirar.
Sussurros 2
É ali naquele matinho escondido
Bem ali entre as moitas e a dama da noite
Entre algumas roseiras
Numa sombra de noite de breu
Houve gemidos
Ouviram, não sei
Gememos juntos
Na noite de breu
Inesquecível
Imperecível
O gosto insaciável
Dos nossos beijos
Mais do que tudo
O antes o durante e o depois
Tatuados em nossas memórias
Ainda, concordamos, arrepia e nos dá prazer.
Sussurros 3
Como pode secar o que nunca jorrou
Dessa sua escrita que brinca de água
Que pensa brotar sem ser semente
Sem doer-se no âmago de si mesmo?
Não adianta agora alguém assoprar
As velinhas acumuladas nas gavetas
Pouco visitadas da velha casa de sempre
Velhos pavios que nunca acolheram fogo
Não há mais o que comemorar nessa fuga
Em que os esquecimentos das datas uma a uma
Foram-se caindo no mais absoluto nada
Os dias ficaram chatos porque sempre iguais
Tão iguais que não mais se distinguia o canto
Dos pássaros que se renovavam e o som das
Águas das chuvas nas pingadeiras de zinco
Tudo parecia igual sem ser no tempo a mesma coisa.
Sussurros 4
Plantei num canto do meu jardim
Uma muda de roseira que ganhei
De presente da minha mãe
Da minha mãe de presente
Ganhei uma muda de roseira
Que plantei num canto do meu jardim
Cada rosa, rosinha ou os botões
Que nascem no canto do meu jardim
A primeira lembrança tem seu endereço certo
Não vou contar da minha saudade
Também não vou dar uma de filho ingrato
Espeto um dedo num espinho da roseira
Deixo meu sangue escorrer pelo galho abaixo
Até que uma gota bem grande caia no chão de terra
E nesse ritual de simples sacrifício ao amor
Revejo uma face meiga que destino nenhum enterra.
Sussurros 5
Poucos têm a coragem de aparecer
De cara limpa
Nos labirintos
Que fotografam o parecer do espírito
Parecer para si
Parecer para o outro
Brincar com as múltiplas máscaras
E docemente verbalizar sobre os mistérios da vida
O que nos leva a crer que almas podem ser lapidadas
Como podemos misturar matéria e espírito
Diamantes brutos e metafísicas
Nossos desejos imediatos e a riqueza de um grande amor?
Se hoje não moramos mais em nós mesmos
Muito menos no outro que nos aconchega e ama e nos beija a tez
Se duvidamos da nossa espécie e perguntamos
Se ela deu certo é porque perdemos o rumo agora de vez?
Sussurros 6
Doutor, para certas coisas não tem explicação, sabe?!
Como compete ao amigo dar conselhos
Consultei meu umbigo aquecendo o seu entorno
Eu queria saber das coisas mais complicadas do amor
Eu queria saber dos combates dos corações dilacerados
Queria saber das frustrações dos seres mal amados
Queria entender das mãos queimadas na brasa do desamor
Mas, como pode um umbigo que só pensa nele mesmo responder
Com algum brilhantismo tal indagação que pressupõe alto grau
De liberdade e sofrimentos minimamente partilhados com todos
Foi hora então de ouvir alguma voz do meu interior
Alguma voz ali embutida por um bom entendedor das coisas do mundo
Alguém que por vivência e cultivada sabedoria pudesse esclarecer
As minhas tantas dúvidas amarradas com nós cegos
Amarradas com palavras que pareciam pesar ao saírem da boca
Dessas artes em que me meti acabei por fim a certeza de ouvir
Numa voz digamos por aproximação de um tom aveludado
No seu dizer de quem sabe das coisas fui ali aconselhado
A desprezar essas audições de vozes alojadas na própria cabeça
Poderiam nada causar, mas poderiam pelo tempo incerto
Da sua estada no crânio estimular um saber mórbido, danado
Para não perder aquele dia estimulei meu palato e fui comer
Um virado paulista na pensão com cozinha mineira
Fui servido por uma gaúcha de olhos azuis que ao me ver
Se pos toda a tremer querendo me conquistar, matreira
Pois foi aí que eu me entortei, doutor, ela virou essa minha mulher.
Doutor, para certas coisas do acaso não tem explicação, podes crer!
Sussurros 7
Qual o peso de uma falsa palavra
Na consciência de um velho e sofrido poeta?
Teria o peso de uma flutuante pluma
Ou a carga de uma patada de elefante?
Se as palavras foram para agradar apenas ouvidos
Escolhidas pelas sonoridades e seus efeitos imediatos
Que importa ao poeta se seus versos são assimilados
De forma tão rasteira de morrer na pele das orelhas?
As palavras que vão tocar no fundo do ser atento
E que modificam suas mais simples atitudes
E que desse impulso se espalham por todas as nervuras
E se rebelam num ato da mais pura coragem
No enfrentamento dos desafios imprevistos do cotidiano
A conseguir tirar de letra as letras que formam palavras
Que se nutrem dos pesadelos mais torturantes
Só por isso não devemos selecionar os recados do poeta?
Sussurros 8
No peixe na banca da feira a surpresa
De um anzol
Que enferrujou
Em sua boca de peixe
Esperto não fora mais fisgado
Sua morte adveio de rede de arrastão
Seus beijos de peixe
Em boca de peixe
Eram beijos de ferir
As beiçolas de outros peixes
O peixeiro não fazia idéia
Do que representava aquele beijo
Com aquele anzol dependurado na boca
Boca de peixe
Boca de peixe com um anzol enferrujado
Sorte de peixe que escapou
E vivera seu tempo de viver
Com um anzol enferrujado na boca
Seus beijos de peixe deixaram marcas
Cicatrizes em outras bocas?
Não vivo tantos anos com esse anzol
Atravessado na boca
Com a voz parada na garganta
Para contar desse peixe com um anzol
Enferrujado na boca para de boca em boca
Imaginar um peixe com um anzol enferrujado
Nessa imagem que não me sai do pensamento?
Sussurros 9
O que leva um homem a demonstrar
Que o mundo humano foi concebido nas coxas
Por ejaculadores precoces nas eras primevas
Em que ficar de costas por muito tempo
Era muito perigoso naquela hostilidade
Quanto tempo demorou para que de frente
Os amantes se olhassem de ver a própria face
Nos olhos do outro como se ali morasse
O primeiro beijo não teria sido para roubar
A comida da boca do outro na loucura da fome
Que ainda não se chamava pelo nome?
Quando o gozo foi pela primeira vez descrito
Para que daí então passasse a despertar o desejo
Quando os instintos foram minimamente educados
Para que fossem criados os inúmeros tabus
E as cerimônias passassem a conviver com esses antepassados?
Conseguimos nos convencer de que tudo o que era
Objeto de uso passou agora a ser nada mais do que uma mercadoria
Pois não se compram e vendem almas nos mercados?
As raridades dos amores correspondidos, essas exceções,
Não confirmam a regra de que os sentimentos mais nobres
Como o amor e a fraternidade se diluíram nos ácidos
Dos extratos bancários ao ponto de corroeram até a alma
Dos seus signatários e usuários?
Sussurros 10
Aos seus ouvidos os sussurros mais apelativos
Chegaram e rolaram por suaves labirintos
E percorreram seus desejos ocultos até despertá-los
Para o encontro inadiável com a tensão da vontade
As palavras que percorreram a partir disso o teu ser
Ficaram fincadas em seu querer conhecer o outro
Porque o outro despertava coisas dos sonhos
Até então nunca compreendidos na real do amanhecer
Uma fala dita num encontro ocasional num corredor
A levou ao arrepio mais frenético que até então sentira
Um despertar inexplicável de uma chama nas pernas
No meio das pernas tremedeira, tremor nas coxas
O mundo realçava suas cores nos olhos dela
As circunstâncias que provocavam contrariedades
Podiam agora ser toleradas e administradas com ternura
A percepção de que poderia se jogar no amor
A deixara encantada dela não se conter mais pura.
Sussurros 11
Vou sussurrar depois
Agora vou compor o pasto
Para recompor o guarda-comida
Vejo você na hora do gasto
Sussurros 12
Quem foram os primeiros
Não foram os primeiros uns ingênuos
Foram não foram
Como saberiam o que seriam
Quais cristais revelariam o porvir
A adivinhação dava certo ou não
Enquanto a luta diária era pelo pão
O estômago obrigava o comportamento
Seguir em frente era uma ordem
Que não se discutia naqueles tempos
Ordem se cumpria
Na santidade ou na embriagues da orgia
Os primeiros canteiros deram novos músculos
Músculos que não se afrouxavam nunca
O que se gastava se repunha
A vida se compunha na música dos chiados
Dos arados, o mesmo som para os vivos
E para os mortos.
Sussurros 13
Essa voz que ao chegar sussurra coisas
Gostosas de se ouvir seja em que tempo for
E que intermitente procura compor em nós
A moderada medida para sustentar nosso equilíbrio
Voz essa que fica a repetir na nossa região
Da decoreba todas as dicas para que possamos
Discernir entre o muito grande e o muito pequeno
Voz que quer dar asas à imaginação mais pobre
Quem poderá duvidar de que os pensamentos
Não são assim formados dessas vozes sussurradas
Nos momentos em que estamos a duvidar do agir
Nos momentos em que vacilamos nas escolhas
Escolher não é tão simples se estamos diante
De duas das mais belas mulheres do nosso tempo
Como escolher entre a nossa mãe e a nossa filha
Se a companheira que amamos não nos permite
Mais repensar o livre pensar ou somente vasculhar
Os horizontes que dão significados às nossas dúvidas.
Sussurros 14
Não vou mais jogar contra a raiva
As pitadas de intolerância e insensatez
Talvez um bom tempero de tolerância
Cultivada nos primórdios da boa educação
Venha a mim não como graça, mas como solução
Fiscalizar o agir, contar até vinte ou cem
Buscar respostas nos arquivos vivazes dos pensamentos
Que não se deixaram cozinhar no fogo da discórdia
Sempre haverá uma lição que não aprendemos
E que será ensinada pela própria vida em seu remar
No entanto não devemos mais pisar nas árvores que brotam
No nosso jardim diante dos nossos olhos pacificados
Quem sabe não chegou o momento do acerto de contas
E o marginal que nos espreita é quem conduzirá o mundo
No aprendizado que fez com os que acumularam gananciosos
E agora não podem mais viver no mundo que ordenharam
De secar as tetas após até sangue desatarem.
Sussurros 15
Num certo momento do dia
Numa hora qualquer
Num minuto incerto
Não temos medo de despertar o louco
Que se aloja dentro de nós como um antigo
E incômodo hóspede que tem um rei na barriga
E veladamente nos ameaça despertar para o exterior
E atormentar nossos juízos e levá-los a enormes vexames?
Se assim convivemos com essa criatura
Que como um encosto desses de praga jogada
Vive nesse mundo dentro das nossas mentes
E marca a sua presença com ameaças terríveis
Não somos um tanto espertos por conseguirmos
Tourear e domar essa coisa feita de sombra
E informe quando diante de qualquer luz
Mesmo frente àquela que acendemos para ler os próprios
Pensamentos e os sentimentos que em incansável
Vigília nós nos negamos em deixar de adorar?
Sussurros 16
(O Vau do Sarapalha – J.G.R.)
“Deixar largado” é para nunca mais voltar
É deixar até as criações que a gente já se apegara
Com amor e é deixar marido traído com maleita
E mais o cachorro magrelo e a própria miséria pra trás
Essa ida embora é para nunca mais voltar
Nem no pensar e muito menos em qualquer saudade
Não é vida de se recordar porque é vida para se esquecer
São coisas vividas que devemos apagar da lembrança
Qualquer outro tipo de vida é melhor do que aquele
Viver: sempre a gente a saber de que com o dia
A gente também pensava que se ia que se morria
Não havia mais saliva nem no canto da boca
Para se pedir qualquer benção ou graça naquela desgraça
A gente parecia estar entre os dentes afiados do sol acima
E cutucado por espinhos da terra por debaixo dos pés
A alma da gente parecia já de há muito ter se largado
Do nosso corpo e tudo em volta não tinha mais nenhum encanto
Nada mais do que a mais sombria desolação
E eu ia ficar lá como o Ribeiro, o Argemiro, a negra velha, o cachorro
Sem esperança nenhuma... sem vida?
Sussurros 17
Já vi em goiaba o vermezinho
Já vi na maçã seu irmãozinho
já ouvi falar de gente que na cabeça
tem minhoca
já vi cupim no armário da cozinha
sempre em qualquer lugar que tem bichinho
vermezinho ou minhoquinha
sempre há de haver um buraquinho
hoje confirmei esse fato
de tanto coçar a cabeça
o meu amigo Zé Lobato
botou pra fora um sarado
dum verme bem avermelhado
o farmacêutico que o tratou
por já ter visto muitos iguais
em nada se espantou
apenas disse ao meu amigo machucado
Nada é para sempre tudo é perene
Você criou na cabeça um vermezinho
Esse bichinho é um simples berne.
Sussurros 18
Venho desfiar novelo ao vento em parco invento
Sem ser notado firme e ajustado num sombrio
E obscuro canto desses de nunca tomar sol
De nunca estar seco pois é preferência de cão
Nesse canto úmido e sem sabor de mistério
Mais triste ainda nas madrugadas frias
Insuportável nas noites quentes de doer o respirar
Vivências essas de afugentar os falsos fantasmas
Dentro de nós nessas horas de torturar o viver
Parece que mora um ser muito diferente da gente
Parece ser um ser que acumula em si apenas desprazeres
E se arroga em senhor de todo o nosso querer
Em suas mãos, em seus domínios reinam as vontades
Absolutas advindas dele próprio em geração macabra
De nós não resta mais nada que seja de nós mesmos
Somos sua propriedade como se fôramos uma pacata cabra.
Sussurros 19
A escolha de uma estrada entre duas possíveis
Tanto a da escolha como a outra sabemos
Que conduzem a tantas outras bifurcações
Que nunca daremos conta em orações, corações e razões
Nada do que é da consciência humana conseguirá abranger
Os incontáveis domínios das coisas vistas como objetos
Como vou saber do dono das mãos que para ganhar o pão
Manipulou tal coisa e lhe deu forma e sua arte agregou
Feliz ou infelizmente ao objeto que agora toco e contemplo
Todo o passado do objeto é mistério e o mistério ainda
Permanece com a sua inegável e simples presença
Diante dos meus olhos que indagam fantasmas das noites
Cujas origens estão nas fontes que surgem e desaparecem
Como os fogos de artifícios apenas sonhados
Antes ou depois de explodirem em luzes coloridas
Nos sonhos dos que ainda conseguem sonhar sonhos
Coloridos.
Sussurros 20
De rancor
Em rancor
Após muitos sofridos rancores
Como pesá-los para que tenhamos
Um único e destruidor ódio?
Em que balança seu peso se fará pesar
Numa balança para as sacarias dos cais
Ou na precisão de uma peça que pesa
Em miligramas os brilhantes que se dão
Os amantes nas horas dos encontros mágicos
Pesado o ódio teremos um cálculo dos seus males
Do seu poder devastador quando der seus ares
A deixar uma narrativa de sangue e cinzas
A borrar a paisagem que era uma pintura pura
Em tintura de mistura macabra de natureza e beleza
A partir daí não mais desconfiaremos dos aflitos
Não mais pediremos graças para simples conflitos
Haveremos de adiar nossa preguiça para lutarmos
Sem tréguas contra os maus ventos que calejaram
Nossas faces e não nos deixaram senão a loucura
Como única escolha.
Sussurros 21
Cunhar cultivar
Viajar pelas beiras
Dos rios das estradas dos planetas das estrelas
Navegar sem artifícios mecânicos
No ar no imaginar no sofrer real
No imaginário cozinhar palavras
Para servi-las como molhos italianos e franceses
Talvez possamos colher um dia
Amoras do nosso quintal comunitário
Os sonhadores continuam a fazer parte dos sonhos
Mesmo depois de mortos.
Sussurros 22
Vinte e dois sussurros
Muitos suspiros
Gana e ganância domadas
Segredos pueris desovados
Desnudar desvelar desfraldar
Num palco num altar numa praça
Segredos assoprados aos ouvidos
Em tons moderados ou aos gritos
Talvez apenas com mímicas ou gestos
Talvez apenas com o olhar
Quem sabe sem nada disso
Apenas com um abraço ou um beijo
Que misteriosa atração esse outro guarda
Para que nossa vontade se faça vibrar
E pensamentos e desejos se confundam
E nos impulsionem para um prazeroso
Novo conhecer?
Sussurros 23
Eu sei que já disseram que seus olhos hipnotizam
E eu só posso neste momento confirmar que é verdade
Eu sei que já sussurraram em seus ouvidos lindas palavras
Que eu sei que não conseguiria dizer com a mesma verve
Eu sei que já a convidaram para um longo namoro
E que eu neste momento não posso ir além de um beijo
Eu sei que já foram fingidos com seus melhores sentimentos
E que eu jamais sequer rasparia em qualquer seu desejo
Eu sei que a sua busca por um amor se faz por um caminho de encantos
Enquanto ao vê-la tão real sinto um galope na cabeça e giro no ar
Eu sei que você é de carne e osso e que obedece seus sentidos
Enquanto sua presença desnorteia os meus sentimentos antes domados
Eu sei que hoje você dará uma chance a este seu admirador
Que de loucas dores de amores pisa em nuvens em ser seu par
Eu sei que hoje, no rodeio, você me deixará montá-la com o máximo ardor
Não fora você uma égua juro que a levaria amanhã mesmo ao altar.
Sussurros 24
Não
Não
Não
Não
Não não não não
Não
Não
Não
Não
Não
Não
Não
Sim
Até que enfim
Oui yes
Mais
Mais mais mais mais mais
Chega.
Sussurros 25
Um segredo contado baixinho num canto
Ao ouvido bem no seu pé
Um segredo contado alto na barbearia
Aos ouvintes espalhadores das novas
A primeira versão vai perdendo a sua história
Há uma invenção em cada novo contar
Outra coisa é contada e que não aconteceu
Mas o agora causo continua sendo reinventado
Esse não ser de coisas que não aconteceram
Contadas em versões reinventadas por cada boca que conta
Não nos dá a impressão de que a fantasia e o ato de imaginar
Estão encarnados em cada um de nós e não há o que os desgrude
Se assim estamos grudados, pregados e emoldurados
Numa fala que nos remete à nossa própria ficção
Se somos esses mesmos personagens que criamos
É porque não mais suportamos as mesmices das repetições?
Sussurros 26
Que hora é essa afinal
Das horas é a final
O minuto fatal
O último segundo
Na ilusão
A escuridão total
Ou a luz sideral
O último ato
Da imaginação.
Sussurros 27
Você já se perguntou ao acordar triste no meio da noite
Que coisa é essa de se estar vivo e pensar que não mais
Estará um dia e que um dia no passado também não vivia?
É estranho
É engraçado
É misterioso
É o fim
Para não estragar essa noite e mergulhar numa angústia
De dar dó
Para não cultivar insônia e começar a ver os cabelos caírem
Coisa impossível de fingir
Para complicar essa noite é uma noite sem estrelas
A energia elétrica está cortada e o violão com cordas arrebentadas
As alegrias fugiram por janelas portas e frestas da casa
Agora ouço grilos e eu sei que são grilos do além.
Sussurros 28
A moça dos segredos se desloca agora em minha direção
Atravessa o salão de baile contornando os dançarinos
Ela é rápida em suas missões de cupido nessas festas
Festas em que iniciamos nossos tão esperados namoros
Sussurros 29
Doar
A doação
Adoção
Como principio
Da formação
De um espírito
Que uma vez espalhado
Permaneça
Espantalho
Dos espíritos de porcos
Que nos assolam
Que nos assombram
Aos berros
Nos sonhos
Nos pesadelos
No imaginário
Ainda com o punhal
Tingido de vermelho
Fincado
No coração.
Sussurros 30
Como numa briga de galo
Pusemos a pulsar em duelo
O metro modelo de platina
Em sua exata medida de um lado
E de outro lado
Algo líquido e molenga
Que tivesse a cara
Da desmedida
Como bons observadores
Ficamos empoleirados
Em torno da rinha
Para assistir à contenda
Faíscas não vimos
Não vimos senão bombeiros
Embriagados em suas folgas
Num fogo de dar dó
A chorar por melhores salários
Perseguidos por agiotas e salafrários.
Sussurros 31
Não digo que não serei o que amanhã pagará o mico
De que tanto tantos e eu mesmo estamos a fugir
A ludibriar nas tantas vezes em que saímos de quiabo
Como que se nos esgotássemos por um vasto ralo
Em quantos pernoites não ficamos a imaginar e a fingir
Que poderíamos por mágica ou qualquer outro querer
Modificar, transformar e até revolucionar o mundo
Próximos de quixotescas aventuras em duelos de devir?
Duelos de capa e espada a defender as justas causas
As mais justas idéias de liberdade e felicidade que imitamos
Reinventadas por nós mesmos depois é claro de assistirmos
Aos tantos filmes que formaram tantas telas em nossas cabeças
Nos nossos mais líricos e pegajosos desejos de abraçar
A alguém num apertar de corpo de entrega inesquecível...
Haveremos de pensar por um momento como essa é a síntese
De todas as formas que os filmes e os poetas nos ensinaram de amar?