terça-feira, 19 de abril de 2011

PARA NÃO SER POUCO

















                                                    



Para não ser pouco I


Todos chegam a um mínimo que garanta o sal e o doce
De uma mínima vida entre raios, trovoadas e amores
Vigiados que somos pelas coisas das cabeças e mentes
Todos a reboque de um acontecer indomável e sem nome

Traçamos em nossas telas imaginárias os desenhos
Que poderiam dar cores alegres ao nosso viver
Para nos defrontarmos em seguida com o implacável
Apagador de sonhos que a ferro e fogo nos marcam nas idéias

As fragilidades dos nossos mais elaborados pensamentos
A mostrar que rédeas trançadas em fios de aço
Nos prendem ao marca passo escravocrata do dia a dia
Porções de venenos ilusórios a comporem a bebida

Com que brindaremos ilusórias conquistas de um louco
Mas, para não sermos tão apequenados diante de nós mesmos
Inventamos para nosso consolo algo que já vem conosco ao nascer
Inventamos que somos um ser que não nasceu para ser pouco.



























Para não ser pouco II

Para não ser pouco é preciso não se fazer de louco varrido
Basta ser só um pouco louco e não exagerar no berro, no grito
Mas, não importa mesmo se as vezes somos tidos como dementes
De que importa se as vezes sorrimos sem mostrar os dentes?

Se um avião passa muito baixo e abaixamos a cabeça
É porque naquela hora se não abaixarmos o avião pode
Pousar na nossa careca ou raspar cabelo de couro cabeludo
Não dá para confiar nesses aviões que querem dar rasante de gaviões

Todas as vezes que buscamos no demais para não sermos pouco
Pouco tempo nos sobra para procurarmos em nós mesmos um pouco
Daquele mistério que nos habita um pouco lá no fundo de nós mesmos
E mais ou menos um pouco de lá e um pouco de cá vamos pouco a pouco

A descobrir um pouco de cada um nós no outro que há pouco desprezamos
Dá até para tirarmos um pouco dessa lição de vida que por pouco
Não nos deixa um pouquinho mais intrigados com o preço vil de mercado
Do pouco de vergonha que conseguimos receber de troco pelo desejo enganado.





























Para não ser pouco III


Adianta fazer desfilar diante nós
Como se estivéssemos sentados
Na primeira fila de um teatro
Todos os que se foram para sempre

Tanto aquela gente que conhecíamos
Mais ou menos
Quanto os mais próximos e queridos
Que nos fizeram fogueiras em nossas cabeças

Essa invenção que chamam de saudade
E que insiste em ser visitadora
Nas horas mais impróprias
Não poderia alguém lhe dar um ultimato

Desses de se resolver numa penada
Em sentença que faça abolir da cabeça
Qualquer lembrança ou esperança de reencontro
O que o poder de sucumbir nos levou tudo
Por tão pouco?



























Para não ser pouco IV


A prova do dia era conhecer algo de si
Numa profundidade nunca dantes alcançada
Era preciso dar cordas ao imaginário que ri
E deixar o ser ranzinza do lado de fora na calçada

Dentro do nosso dentro haveria um algo de um ser
Que desconhecemos em nossos acordos de acordados
Se então queremos algo saber desse escondido em nós
Vamos logo desistindo por força do esquecimento

Sem nos darmos conta ele manda uma mensagem
Truncada e boba e com isso quer dizer: eu existo
Mas como pode existir sem corpo
Como pode existir numa forma que se desenhou no nada?

Talvez brincando à luz de um sol de nosso voraz verão
Talvez numa noite de lua cheia entre extremos de brisa e vendaval
Quem sabe sob a chuva refrescante em que dançávamos o carnaval
Possamos por algumas horas vadiar no mais intenso da nossa fruição
Dançar aonde dança – mesmo que cafona – o alegre no coração.




























O mínimo se pôs ali a chocar apenas cores,
Pensava nessa tarefa extrair sons musicais líricos
O tempo dessa hibernação não era o dos relógios
Que em próprio caos giravam agora rumo ao anti-horário

É claro que as coisas estavam modificadas
Em cada elemento notava-se algo diferente
Do que sempre fora e que parecera se perpetuar
Não fora o visível estado dos acontecimentos

A provarem que o mundo chegara ao auge
Do impasse e que agora os ventos eram outros
As musas cobravam ríspidas as suas glórias
Agora esquecidas e enfurecidas enlouqueciam

Os que se dedicavam a menosprezar e a matar as poesias
Na insana tarefa de reciclar o já visto e publicar como inédito
Toda essa farra dos espertos agora era cobrada sem defesas
Um fogo insuportável estava a cozinhar os cérebros dos farsantes.
































Ao ouvir falar da vocação da psicanálise para a subversão do instituído
Passei a gostar de lamber pelas bordas dos miolos os meus desejos
De em cada coisa tentar ver o diferente daquilo que era somente aparente
Passei a usar anzóis imaginários que pudessem navegar no insondável

Achei que podia a partir daí fazer graça de graça mesmo que sem muita graça
Pude pular os paredões que se avizinhavam mais adiante das minhas praias preferidas
Os elementos contaminados pelas maresias faziam parte do todo dominado
Apenas algumas vidas podiam se livrar desse algoz poderoso e corrosivo

Cada ser recebe e incorpora ou repele e joga fora o que vem para colar ou depredar
Nas entranhas as mudanças mais significativas poderão gestar o devir
Enquanto nas superfícies vamos apenas moldando as formas provisórias
Os desejos mais ardentes se constroem no tempo que não se deixa cronometrar

O dia de nascer o diferente é só uma questão de tempo na morada do estranho
A fala incorreta dirá a verdade de que o sol não é para todos
Pouco importa quem se contenta com uma única estrela não nomeada
Ou aquele que coleciona constelações em seu colar onde brilham ilusões e alucinações.    
































Muitas Canoas

Quem sou eu, nesse insondável
De não se estar ciente ou cônscio
Sou eu não sendo frio ou caliente
Obscuro sou no meu silêncio
Se aceso não sou mais, embora vidente

Há em mim o inimaginável
Tão formidável que vive num ser
Sem ser e muito menos ter
Nesse lugar a chuva não molha
As miragens são verdades incontestes

Esquecer é a minha matéria prima
Onde tudo é tão livre, a alma esgrima?
Tudo pode também ser prisão se por acaso
Em mim parasitam o gozo, a ação e a paixão

Se “sou onde não me sei”
Como me saio dessa se aí entrei?
Com uma perna em cada canoa
O rio leva meu barco e também não me leva
À toa?



























Poeminha Desprezível

vidinha
tão
pequenina
que é inha e nina

não cabe só dentro do nada
cabe num grão de areia
cabe dentro dum fio de cabelo
não cabe no espaço de um segundo

cabe num beijo que só foi desejado
cabe na risada da mulher que ama e é amada
cabe no animal que morre depois de gozar
não cabe na flor de maracujá que está a desabrochar

vidinha
tão vidinha
que se não for mentira
também não se adivinha.  





























Houve um tempo
Em que não se ouvir
Fazia parte do roteiro
As vozes falavam mais do que queriam os pensamentos
Nossas cruzes de rústicas madeiras eram fincadas nos peitos
Dos vampiros que estavam disfarçados de políticos
Cravadas nas barrigas de cada empresário que pagava segurança própria e do estado
Nos nossos varais não dependurávamos mais as nossas roupas
Vivíamos vazados pelas sombras fedorentas do medo
E bebíamos um a coragem do outro para suportar o fardo
De que a qualquer momento estaríamos em tortura ou desencarnados
Em batalha nada mais resta
Resta a batalha
Alguém tem que pingar os is
Os nossos corações não se espalham mundo afora sem porteira
Aprisionados que foram nas mesmas malhas
Rifamos nossas vidas
Para que a sorte
Fizesse delas mais um acaso
O remédio tanto para o corpo
Quanto da alma era não temer a morte
Que heróica
Passara a integrar os nossos sonhos
No auge da nossa juventude.






















                                                       MÍNIMAS

Mínima I

Deu no pé
É bicho,
Correu?
Não, é busca-pé


Mínima II

Cocei bem aqui
Ali e acolá sem parar
Cocei pra você
Cocei pra mim
Cocei e na coceira
Não dei fim

Mínima III

A mínima mira
Para passar fogosa
No buraco da agulha
Em cuspe a linha


Mínima IV

Quem perde tempo
Nada em consolo perde
Não se perde o que não se domina
Tempo é o que mais sobra na eternidade


Mínima V

O verdadeiro amor só existe no pensamento
Existe assim dessa forma sem corpo
Ele é mais alma sem cor no invisível
O verdadeiro amor é só voz e luz do sentimento











Lembrancinha I

Esse pequenino narizinho
Igual a uma batatinha
Que também parece de cerinha
Foi por uma fadinha criado

Olha só para o seu jeito de experiente modelo
Que vai vender montanha de chocolate
Não se sabe se vai vender o produto ou comê-lo
Com essa carinha vai é consumir uma tonelada de sorvete

Você, menininha, é muito charmosa
Mas também muito engraçada
Caras e caras você faz para nós
Como pode? Sua avó toda se sacode!

Luana, Luaninha
Já dá samba e sambinha
Luana, Luaninha
Você é o nosso poeminha.




























Não voltarás
Não saltarás mais as sombras desenhadas nos muros
À bala
O seu perfil estilizado ali está fixo emparedado

Flores apenas as que crescem em meio ao mato
Tudo esquecido
O que se pensava poder mudar o mundo caducou
E agora vazio de memória jaz no nada

Não há mais resgate possível
Nem no imaginário
Em nada
As últimas vozes se calaram há muito

Nada
Nem bisbilhotar de borboletas fora da estação
As pregações mais do que esquecidas foram mortas
Não há mais registros
Nem achados ou perdidos.
































Se não há nada a ver
Por que esse mar tão majestoso?
Se não há nada a falar
Por que essa fala tão falaciosa?

Respirar, muitas vezes, remete à consciência
De que não entraremos no próximo capítulo
Da nossa própria novela escrita enquanto
Em vigília achamos que podemos controlar nossa sombra

Que astuciosa está o tempo todo a elucubrar com as luzes
O seu lugar de onde melhor pode conduzir o nosso corpo
Que agora não se apercebe de que algo anda alquebrado
Naquele vulto que faz de conta conviver com nossa existência

Só porque não se molha vive a desprezar a água
Como pode a sombra assim se comportar?
Não sabe ela que após nossos descaminhos e infortúnios
Chegará o tempo em que as sombras nunca mais advirão
De um corpo que achava que a animava como amado fantasma
Não sabe não, querida, minha assombração?! 





























Ali, pela sombra da ponta do rabo que se vê
Esconde-se nada mais nem menos do que
Algo que se esconde na verdade dentro de você
Uns dirão que é a alma, outros o que não se antevê

É, assim, diz o técnico como o que se passa por dentro da TV
Energias que se farão vistas na tela e agora no imaginário
Não é um momento crítico esse em que metemos medo em fantasmas?
Não é também para contentamento quase infantil esse discernimento?

As frases surgem e pouco importa se são varridas como sujeiras
Para o quintal por plantar as nossas intermináveis ilusões
Quantas centenas de desejos devemos inventar para tão poucos deles desfrutarmos
Nós que não paramos nunca para contar os desejos que não vingaram

Nós que não desatamos os nós complicados com a paciência das mãos
Nós que cortamos esses nós e os remendamos para tentar descobrir
Seus segredos que não se revelam sem matemáticas e lógicas
Tão distantes das nossas indagações metafísicas e ruminações sofridas































Não pensar no pouco do tempo da vida
Nunca pouco é tão grande e eloqüente
Não há coragem nesse mundo que não se intimida
A deixar a gente de riba seco comovente

Há viradas que atordoam de tão mágicas
Viradas no puro suor de quem se esforçou
Para se agarrar nas moitas à beira do abismo
De quem também nadou imaginando-se peixe

No novo dia que se apresenta é muito diferente
Olhar para o sol sem um estranhamento aparente
Olhar para a mesma lua de sempre e achá-la exuberante
Não é possível desprezar cada uma das estrelas em seu particular

A nossa cara há de ter uma nova forma e novos traços
Marcas que afirmam que ali houve uma mudança de rumo
Nos pensamentos que se formam agora uma voz interior
Repete compulsivamente que renascer não é pouco.
































O tempo se faz sempre de pouco no bem bom
Na cadeira do dentista se faz de eternidade
Em certa fase da vida beija-se por horas
Para mais tarde apenas numa vaga lembrança

- Colorida por uma saudável saudade solitária -
Desfrutar de momentos que não voltam mais
Dizem haver esteiras do tempo a rolarem em nós
Dizem até que na verdade somos tão somente

Essas memórias e que elas que vão e são o viver
É mesmo assim um viver por viver as coisas
Passadas que são atualizadas num constante
Passar a limpo o rolo do filme das muitas recordações

Dizem que esse viver é para quem sabe das essências das coisas
Não é um viver que se deixa levar por qualquer bem ou mal
As tantas pressas e as lutas inglórias de cada dia sem respostas
Sonegam de cada ser as misteriosas potências que iluminam o natural
Não está na hora de dar um jeito na fachada
E também no quintal
Quem por dentro ainda não se achou achada, minha amada?!


























Todas as vezes
Em que vozes
Ferozes
Forçam fingimentos
Em nossos comportamentos
Pacíficos por fora em aparência
Ao mesmo tempo a roer por dentro o nó do umbigo
Assim eles outros julgadores se julgam felizes
Em dar de querer infelicidade aos próximos
Quem diria que ao pensar no amanhecer
Que se foi
De que se ouviu falar
E também no que virá amanhã ao acordar
Quem há de garantir
Que uma bomba não virá ensurdecer
E por que não se pensar numa música
Que desencante o marasmo
E se alongue por todos os dias
Miseráveis que ainda haveremos de presenciar
Que triste juízo poderemos então fazer de nós mesmos
Se não passamos de juízos dos outros?  





























Extrair um dente
Antigamente
Era dor e era alívio
Hoje em dia dor e alívio
É encerrar a conta
Do cheque especial

Por tantas coisas
Somos carcomidos
Que já não sabemos
Mais selecionar nossos desejos
Mais verdadeiros
Somos de tudo um pouco
Como quitandeiros de almas
Multifacetadas

Não se contentam as crianças
Extraírem da mãe todo o seu afeto
Não se fazem de muito rogadas
As mães em cada sagrada mamada

Essas seivas que salvarão das muitas intempéries
Todos os mamíferos carnívoros ou frutíferos
Não têm o poder de salvar de um espírito de porco
Aqueles que chafurdam a pobre alma feita de podre lama

























Quantas vezes acordamos
E já estamos esquecidos
Dos sonhos
Que há tão pouco sonhamos

Quantas vezes pensamos
Nos nossos sonhos
Com a intenção de decifrá-los
Para com isso homenagear nosso outro

Talvez o nosso outro que está a habitar
Numa possível alma
Impossível de acessar
Na sua linguagem tão imprópria aos acordados

Mais próximos dessa natureza
Não estarão os que perderam o juízo
Como dizia a minha avó
E agora se deixam levar pelo que há
De mais distante de causar a maior impressão
De estranhamento?
Não são como os navegantes fantasmas que habitam
As fantasias dos que viajam nos livros de literatura
E vivem o real como se ficção fora?

























Sentir haver ficado
Sentir ter ficado
Sentir muito
Muito
Certificado
Fincamos ficar no raso e
Também no fundo
Para o bem ou mar adentro
Em dia de muito temporal
Pode ser recomendável
Pode ser considerável
Alertar as gaivotas
Das nossas possíveis lorotas
Tanto pensamento em ondas
De todos os lados
Agora sem tempo de ficar
Sem tempo de fugir
Ondas e mais ondas
Demais ondas
Ondas que não param por parar
Ondas em representações
Em espetáculos
Gratuitos
Irresponsavelmente
Livres de nossos
Quaisquer
Juízos.


























Pouco me importa
Se há ou não porta
O que me comporta
Acolhe coisa viva
Não morta

Viu como não importa
Se aberta ou fechada
Está a porta livre das raízes
O veneno paira pelos narizes
Não sou eu em minha fachada

Para dizer que tudo vem de um som primordial
Tanto o mudo
Como o que berra
Não há aço no espaço
Que não vire terra

Meus ouvidos me dizem
Que já vêm programados
Lá de um som muito antigo
Esse som continua a se propagar
Em alguém que nasceu de mim
Contigo num nosso amar
Assim como se espalhou naquela noite
O mais lindo luar
Que nos fez esquecer a vinda da sorte





















Há um pouco dentro de nós que se faz de besta
É um pouco de amor que amontoado transborda
 de um lado
é um pouco de afeto que falta de outro lado
 e faz aquela careta de carência

não é contumaz se fazer de bobo um certo desejo
ele está ali em nós para vir sem avisar
sorrateeeeiiiiirooo
e nas vezes em que vem parece até um gigante
jambeeeiiiirooooo

fica no ar
como que a saturá-lo
o cheirinho irresistível do jambo maduro
é uma lembrança para o ano inteiro

não é pouco
não é louco
não me deixa em alto mar
  não me mata de saudade
não é isso lúcido
é como se fosse a vida sem chocolate



























Das tantas
Tantas das
Tantas tantas
Das das
Posso só ouvir o som das palavras
Tantastantastantastantastantas
Dasdasdasdasdasdasdasdasdas
Brincar de ouvir
Ouvir e brincar
Sem bola de couro ou borracha
Podemos rolar um pesado coco
Podemos malabarar laranjas
Caveiras em mamão verde
Com velas dentro nas noites de breu
A memória do primeiro gosto
De uma fruta e o frescor do seu cheiro
São coisas da infância e nada mais
Nada mais do que coisas essenciais
Vejo frutas misturadas ali na fruteira
São os gostos e os cheiros da vida inteira.






























De tanto querer se livrar das chateações
Das picuinhas
De tanto tentar beber todos os saberes
Até os das entrelinhas

Meus nervos acabaram não resistindo
E de tanto se enervarem
Tanto se comprimiram e relaxaram
Que agora se comportam descontrolados,
Não há comando para esses desmiolados

De tanto que por achar tudo muito pouco
Chega hora em que vem uma estranha cobrança
A querer receber sem nunca haver mostrado a cara
Está aí à nossa porta uma tal de dívida emocional

Por estar toda travestida de cosmopolita
De ser de domínio público em todo o nacional
Vem para levar nossos todos os bens
Materiais e espirituais
Nossos mínimos sais
Nossas frágeis morais
Não se importam se somos vítimas do mesmo bem
Que nos provocou esse triste mal
Elas vêm com o selo da famigerada
Crise internacional
Não importa se com cara de santa
Não importa se excitada para o bacanal.



















PARA NÃO SER POUCO (XXVI)


Para não ser pouco
Não é preciso preencher o oco
Que como o ar escandaloso
De um poderoso tambor
Ecoa por entre os vazios dos nossos sofridos pensamentos?

Como lidamos tantas vezes com os nossos desesperos
Calejados que somos de tantos míseros destemperos
Não chegou a hora de oxigenar em nós um livre pensar
E galgarmos o primeiro degrau de um impulso rumo
A algo ideal mesclado de matéria e belo senso espiritual?

Podemos caminhar juntos nossos pés nesses espinhos
Ao sentarmos para o descanso será mais fácil um ajudar
Ao outro na retirada dos estrepes inoportunos que sangram o corpo
Aliviados poderemos respirar contentes diante das nossas carências vencidas

Tantas vezes pensamos em caminhar sozinhos diante dos infortúnios
E basta nos encontrarmos poucas horas mais tarde na mais viva solidão
E já perdoamos ao outro e a nós mesmos pela besta fúria da intolerância
Nessa hora bate em nosso peito a verdade da mais descarada pulsação:
É nessa hora que bate por todo o dentro de nós mesmos a mais poderosa
E escandalosa das memórias amorosas e nos faz escravos de um simples
Amor e sua insuportável saudade.

























Não Escolha Ser Um Bolha

Diminuído e mesmo assim de pouco em pouco
À beira de se passar por louco
Escolheu meu jovem amigo escolheu ser pintor
Encheu de tristeza aos pais; de alegria ao velho professor

É assim mesmo que somos e acabamos esquecendo
Não é assim mesmo?
Mais ou menos?
Mas que escolhemos, escolhemos, mas esquecemos

No momento da escolha algo falou mais alto
Alta era a alma que ali voejava
Não estava na volúvel sombra no chão
A vontade impossível de ser controlada

Podemos, muitas vezes, escolher errado
Mas que escolhemos, escolhemos
Por ser da vida, não nos encolhemos ao escolher
Laborioso é se livrar do que colhemos dessa errada escolha













Que sonho é esse que me bate de frente
Acelera
Pulsação
Dispara
Coração
Que sonho é esse que perdura dia afora
Carregado de desejo
A me comer pelas beiras
Ladino pecado venial
A cutucar brios e propor desvios
É sim tal picada muito caranguejeira
Pica pinto ouriça pelo contamina vagina
Sempre bem vinda uma ida ao banheiro
Cem por cento de alívio
Só se gasta energia nunca dinheiro
Também não é nada assim
Que só vem para chatear
Isso é coisa que vem sem muito raciocinar
Há algo no desdém
Há algo que quer se vingar
Em nós
De nós mesmos
Por indecifrável perverso mistério
Daqueles advindos do diabo
Coisa de alguém que se chama Coisa
Há também o lado bom disso
Quando pensamos que temos um guardador
Um anjo que brinca com nossos desejos
E nos cutuca com essas tentações
Esse anjinho safadinho
Vive a criar em nós esse inferninho
Vai anjinho
Faz de conta que não te vi
Vai anjinho
Vá tomar no bar do “Endereví” 

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