quinta-feira, 7 de abril de 2011

VOZES DA MADRUGADA

                          

Vozes da alta madrugada I


Assopram do nada nos meus ouvidos as falas dos amigos
Que ficaram na memória exclusiva das noites e seus serões
Em que alegres ou tristes não mudaríamos o mundo
Mas sabíamos que poderíamos curti-lo diante das constelações

Habitávamos os jardins públicos
Sem nenhum cerimonial
Especial ou sábia esperança
Integrávamos com a nossa entrega
Aquela praça como se fora nossa
Natural herança

Não tinha a menor importância a quem o jardineiro
Do dia culpava pelos estragos nas plantas
Talvez ele achasse que fora coisa dos fantasmas
Da noite
Talvez entendesse que a sua tarefa era sempre
Reparar o que as patas dos bichos quase liquidaram

Assopram aos meus ouvidos as falas dos amigos
Suas vozes
Suas confissões adolescentes
Suas buscas para se conformarem ao mundo
As primeiras batidas amorosas dos corações
E suas conseqüentes frustrações
A vontade de cair numa vida de aventuras
Que os filmes haviam instigado irremediavelmente

Assopram no meu pensar silencioso, calmo, quase calamitoso
As aspirações livres que aqueles jovens sonharam
Posso então reviver aqui e agora – nesse irônico devir - idoso
Os melhores dias dos sonhos que nunca se realizaram.




Vozes da alta madrugada II


Hoje me banhei e perfumei-me para na noite
Próxima sair na perseguição mais uma vez
Da certeza que aprendera a fugir reiteradamente
Do meu controle que sempre fora de certa sisudez

Até seria razoável se ela fugisse quando eu estivesse soltando asas
Num outro eu alcoolizado e visivelmente descontrolado
Talvez ela pudesse se ausentar nas minhas tristezas
Mais atrozes ou no meu máximo do desolado

Hoje me banhei e perfumei-se para na noite
Ver se dava sorte na nova procura, nessa sina dos angustiados
Veio a noite e saí por aí como saem todos viciados
Incontroláveis em seus desejos atiçados a sopro forte

Até seria razoável se alguém me dissesse em sua agonia
Que eu deveria deixar de lado qualquer certeza qualquer alegria
E desistir desse jogo em que os homens se esquecem a toda hora
Que a única certeza é de que nada é definitivo, pois a noite volta
Mas também não vai embora?















Vozes da alta madrugada III


Você nunca há de convir comigo
Nem aqui nem lá nem umbigo
A convivência nas noites em que se podia
Contar estrelas e no final descontar as cadentes

Por mais “calientes” que fôramos em nossos
Lugares tenentes na doçura de uma brisa fresca
Num dia de verão enquanto corpos e pensamentos
Que se pensavam livres se refrescavam em água de beber

As armadilhas sabíamos desarmar com perícia
Não nos degradávamos nas incertas bobas horas
Víamos horizontes que ainda não haviam sumido do olhar
Nas tempestades os raios e relâmpagos mostravam a sua cara

Havia uma implicação nunca resolvida nessas vontades selvagens
Éramos felizes e sabíamos, mas inculcávamos como preservar
Aquele estado de espírito natureba para todos os dias que viriam nos visitar
As nossas ambições não eram pequenas, pequenas eram as breves miragens
Que insistiam em diminuir nossos sonhos porque invejavam o sonhar
E o seu sonhador. 

























Vozes da alta madrugada IV


Começamos por olhar a noite estrelada
Daí a indagar:
O que pode haver por esse céu infinito
Outros seres ou apenas a casa dos espíritos?

Tudo é assim tão simples e ao mesmo tempo
Complicado na adolescência assim mesmo quando
Temos ou não obtemos boas respostas e ficamos
Mais nas apostas do que poderiam ser as coisas

Para descomplicar esse falso emaranhado de idéias
Podemos dar corda ao nosso imaginário em todas
As noites estreladas em que a lua fica de si mesma
Enamorada e os demais astros brilham menos por inveja

Começamos por olhar a noite e seus mistérios e seus enigmas
E acabamos por dar de cara com o sol em nosso rosto sem realce
No amanhecer que vinha revelar ofegante outro mundo e manias
Um real que sabíamos negado no entardecer de todo dia em nossa face.





























Vozes da alta madrugada V


Serve
Mais uma
Mais uma
Mais uma
Maisuma
Maisuma
maisuma
Maisuama
Maisuama
Maisuama
Atéamanhã, bundão!



































Vozes da alta madrugada VI


A noite de breu nos surpreendeu na primeira garrafa
A chuva fria multiplicou nossa pressa
Das palavras brotavam água
O vento qual açoite em nossa pele estalava
Esses são versos sobrecarregados daquele passado

Éramos muito chegados e não nos largávamos
O caminho tinha que nos comportar
Quisesse estreito ou de rastejar pelos barrancos
Ficamos unidos e vencemos todos os obstáculos

À barraca avistamos como um palácio encantado
E uma vez ao abrigo ficamos balbuciando
Sobre a aventura como se brincássemos com a nossa infância
Sob a coberta seca e quente bebemos mais cerveja

Tudo poderia se acabar, um dia, em nossas vidas esquecidas
Como acho que tudo acabou se acabando, mas aqueles momentos
Congelaram-se eu sei
A magia da sua cristalização em minha memória, a sua lembrança
Em minha mente não me desmente
Tem muito mais segurança e vanglória do que na coroa de um poderoso rei
Um valioso e enorme diamante que pode muitas vezes enfeitar a cabeça
De um soberano e tirano demente.
























Vozes da alta madrugada VII


Passos na noite quase de manhã
O poeta e o músico
Cada um acaba de fechar um bar
Cruzam-se no meio de um ajardinado de praça

“Toca aí um fundo musical que eu vou declamar
O navio negreiro inteiro.”
“Está bem, mas não sei se vai combinar
O dia já vai amanhecer, parceiro.”

E puseram-se a tocar e a declamar
O primeiro que parou para ouvir foi o padeiro
Depois veio o farmacêutico que morava
No prédio em frente no primeiro andar
Por terceiro se aproximou um leiteiro
Juntaram-se outros bêbados que por ali passavam

E o dia amanheceu
E foi juntando mais gente
A praça foi ficando pequena para tanto povo
E era no fim da declamação tanto bis
E tanto toca e declama de novo
Que assim desse jeito mesmo
As horas foram se passando

E entraram pela tarde naquela encenação
A praça já era pequena para a apresentação
Acabaram-se os doces e salgados dos bares ao derredor
E o poeta a declamar
E o músico a dedilhar seu violão
E o navio negreiro a navegar

Veio a noite e a madrugada e outro dia e assim por vários outros

A notícia daquele feito correu a cidade e depois a região
Foi para outras cidades e logo por todo o estado
E do estado se espalhou pelo país
E do país foi um tempinho para a internet vazar pro mundo

Para encurtar a história, acredite quem quiser ou duvide dela
Brasileiro ou estrangeiro
Veio assistir ao poeta e ao músico até o Pelé
Veio já meio capenga da África o Mandela
Veio o Hamilton da fórmula 1 e com ele um pintor da Guiné
Veio Gilberto Gil ver a retreta junto com a sua filha Preta
Sempre ligada no automático e veio do mundo muita gente
Só não veio o Fidel por estar muito doente
Veio sem ninguém avisar dando uma de merecido bacana
Mas, causando grande transtorno diplomático
O Barack Obama

Quem esteve lá e hoje passa pela mesma praça
- Praça que os moradores locais chamam de jardim público -
Para quem presenciou aquele especial encontro
Esses muitos podem com a sua imaginação e lembrança
Visualizar o poeta e o músico no mesmo lugar
Um a declamar o outro a tocar

Já existe a correr pelos quatro cantos da cidade
Uma lista reivindicando ao poder público prioridade
Para a confecção de uma estátua de cada um daqueles boêmios
Para o justo perpetuar
Daqueles que na vida descobriram outra forma de viver
Sem se humilhar sem trabalhar.


(Se não é verdade, foi bem inventado?)





























Vozes da alta madrugada VIII


Ele chegou ao ponto
De não prestar nem mais
Para emprestar o violão

Ninguém mais lhe pagava nada
Sua bebida era servida e engolida na calçada
Seus brios foram lixados de tirar a pele

Chegara naquele ponto
Em que o retorno
Era a mão única de volta ao nada

Seus berros na noite chamam a bondade da morte
Ele é agora a própria cara da loucura
É um abandonado espectro à própria sorte

Num outro canto uma mulher procura
No seu álbum a fotografia de um antigo namorado
Não, não pensem que é ele o procurado

Aquele que ela procura foi amado
Foi desejado como um príncipe encantado
Não, não é ele agora o que fora, o que fora não é agora.
























Vozes da alta madrugada IX


Um pé na guia da sarjeta
Outro na enxurrada
Pés descalços
Quem nunca passou por esse acontecimento
Opina sobre a vida inteligente e os seus elementos naturais
Com a mesma verve do papagaio da anedota:
“Fala alguma coisa, Loro. Canta alguma coisa, Loro.”
E o Loro responde:
“É plágio! É plágio!”







































Vozes da alta madrugada X


Meus sentimentos
Multiplicados
Por muitos sentimentos
Por que então ainda escuto o som do violão
Naquelas madrugadas da nossa juventude?

Éramos seresteiros e boêmios em projeto ainda
Os mais velhos davam suas aulas pelas ruas
Praças e bares sem nos esquecermos das janelas
Embaixo das janelas as vozes achavam seduzir

Maldito cachorro ou cadela que estragou minha serenata
Minha primeira serenata para a primeira namorada
Que mais tarde não ficou muito atrás daquela cachorrada
Fui trocado por um boêmio mais experimentado, já conceituado

O primeiro amor é só para a gente ter o gosto ensina velho cantar
O gosto de aprender que existe um diferente e gostoso paladar
Podemos quando muito cheirar essa moça, seu frescor
Mas o seu sabor foi a nós proibido por artimanhas do próprio amor.


























Vozes da alta madrugada XI


A hora
Agora
É a mesma
Hora
Daquele mesmo
Dia

Hora em que sorrir
Era
Lei e cumpra-se
Não
Se recusa
Tamanha oferenda

Qualquer
Sussurro tinha vez
De discurso
As palavras não pesavam
Mais que plumagem de pequenas aves
Só os doentes do momento não cantavam
O refrão chamado pelo nosso coro

Aquelas vozes ressoam
Pelo que resta em resíduo
De lembrança
Daquele cenário
Há ainda um beiral de uma casa
Em que as trepadeiras
Nunca deixaram de crescer
Pelo telhado
Que ainda recebe o mesmo sereno
Que formam gotículas e nas quais
Todo o firmamento em miniatura
Resplandece
Para rebater essa ressaca
Como pão com mortadela
Que divido com uma cadela
Que nem sei o nome dela.









Vozes da alta madrugada  XII


Bom dia boêmio
Bom sono pós-boemia
Uma bebida amarga para arrematar
E dar força para os olhos a fechar
De tanto sono e fácil desprezo pela luz solar

Café com leite
Pão com manteiga
E basta de embriagues de agora
Até chegar o entardecer
Novo encontro
Novas sabedorias
A busca incessante do sentido da vida
Galopa
Galopa
Galopa
Estou aqui na sua garupa colega de copo
Irmão de sangue
Do mesmo sangue batizado
De álcool, poesia e consuma amizade



























Vozes da alta madrugada XIII


Há hoje
Nesta exata hora zero
Do fim da noite
E o começo do dia
Há um louco a gritar em nós:
Não durma ainda!

Vamos juntos, ele diz,
Fugir para a noite
Do sempre noite
Vamos embora com as estrelas
Com elas fugir do dia
Não durma ainda!

Fecha os olhos e fica na noite
Venha para os desejos
Que brotam ao sereno
E suavizam os sonhos pesados
Vem para a noite do sempre
Sugar da imaginação o seu âmago
Não durma ainda!

Vamos para a noite do sempre
Assim como voamos para o além num beijo de amor
Vamos ligados em nossas máximas energias
Para produzirmos também um raio de luz na noite
Uma luz que imiti a grandeza dos que desfrutaram
Daquele amor em que se doaram e se sacrificaram
Não durma ainda!
Há um louco a gritar em nós.

















Vozes da alta madrugada XIV


Você sempre acaba vindo
Mas hoje não veio
Tentei enganar minha vontade
Fazendo de conta que você não existia

Tudo em torno parecia real
O copo parecia real
Real parecia a bebida com que me embriagava
Todos os objetos retiraram suas fantasias de rudeza
E se apresentaram com as suas marcas estampadas
Nos seus lugares mais visíveis
A saudade parecia real

Mas hoje você não veio
As canções tiveram um efeito purgativo
As melhores anedotas tiveram o efeito de um pesar
As formigas no açúcar cumpriram sua real rotina sufocante
As luzes pareciam fustigar nossas idéias como chamas a queimar inspiração
Versos que se apagavam mal estavam a brotar das mãos na recepção do papel

Mas hoje você não veio
Posso levar comigo para a minha casa
A sua imagem
Posso colocá-la na cama comigo
A sua imagem
Posso também por vingança deste meu canto
Colocá-la no mísero espaço de um canto
A sua imagem
Porque hoje você não veio

E porque hoje você não veio
Cheio da mais orgulhosa moral
Não conto este dia em minha vida
Como um dia com a aparência de real.













Vozes da alta madrugada XV


Hoje não dei sorte
Não me veio
Ninguém de suporte
Beber só é feio

Hoje cantei só num canto
Refrões desafinados
Nada espantei
Apenas o silêncio bem sei

Hoje beber não foi legal
Por mais que bebia
Só me fazia mal
Não me embriagava, bem sabia

Hoje alguém espera pelo jornal
Só quer ver quem ainda está vivo
Para saber no ato se é alguém do seu convívio
Vai logo à coluna de funeral.




























Vozes da alta madrugada XVI


Não se quebra um violão impunemente
O nosso castigo
Por esse ato insano
Foi  que ficou despedaçada a nossa amizade
Não se recupera jamais
Uma amizade depois de quebrado o violão antigo
Quebrasse a cara do amigo
Quebrasse os seus óculos
Quebrasse uma cadeira ou a sua bunda
Não quebrasse o violão
Desse em cima da namorada dele
Beijasse ela se ela deixasse
Desse um amasso nela na escuridão
E recebesse uma esfregada de portão
Não quebrasse o violão
Foi uma calamitosa madrugada
O som do violão contra o chão
Foi de agonia
Parecia um som de gente que ali gemia
Não quebrasse o violão
Naquele momento de agonia sentimos
Como que se a nossa memória se esvaísse
E se fosse para sempre como ia aquela única madrugada
Com o começo do dia que a matava para sempre
Não se quebra um violão
Humanamente.





















Vozes da alta madrugada XVII


Quanta ausência
Que noite é essa que se alimenta
De tanta ausência
Que noite é essa em que o músico é ausência
O poeta é ausência e o boêmio não voltou

São outros os bares e seus donos
São os mesmos bêbados e as mesmas esperas
São outros risos e outros os paladares
São os mesmos desejos que se deixaram morrer

Junto com o fim da madrugada
Os homens afins dividem o seu torpor
Não se tem mais noção da vida e seu amar
Não se tem mais um leito para se recuperar

Não há mais nada a compor
Um verso - apenas um - seria humilhar a sina
De todos aqueles que deixaram de ser e de sonhar
Não é possível fazê-los reviver num canto de esquina




























Vozes da alta madrugada XVIII


Força
Força mais
Força mais a
Força mais a barra
Barra
Barra a
Barra a mais
Barra a mais força
A madrugada se esforça
Mas acaba indo embora
Ela não suporta a luz
Ela a escuridão ama
Por essas e outras
Levo-a comigo para a cama
Pelado, sem pijama.































Vozes da alta madrugada XIX


Fomos fazer serenata para a professora
Que mais odiávamos naqueles tempos
As letras das músicas escolhidas tinham os seus
Versos parodiados e debochavam sem limites

Saímos correndo dos tiros
Saímos perseguidos por cães ferozes
Saímos com a alma lavada
E felizes com a lembrança do episódio

Renato cagara embaixo da janela
Que em seu parapeito recebia uns cactos furtados
De um vizinho 
Urina do João escorrida pelo portão a marcar território

Flores vencidas, mal cheirosas, apanhadas no cemitério
Davam um tom sinistro ao cenário deixado pelo caminho
Todo um arranjo ajambrado numa coisa muito feia de doido
No ramalhete lá deixado estava escrito: À mestra, com carinho.




























Vozes da alta madrugada XX


Não fui o boêmio principal no teatro da nossa época
Fui um simples coadjuvante que foi convidado pelo tempo
A mostrar pouco talento nas artes musicais e cênicas
Restrito a servir de contraponto e dar maior luz ao artista maior

Tudo na vida espiritual ou material pode ser lapidado
Se deve ser de fato não sei, mas convém indagar
Por que do diamante esculpido ao músico que se ilustrou
Podemos tirar lições de diferença entre a rudeza e o exemplar?

O boêmio provinciano viveu como um príncipe a sua juventude
Viveu a maturidade como um rei vivendo de bagatelas
Cantou e encantou os dias e fez mil homenagens às estrelas
Sem nunca dar nenhum sinal de ser um ser rude

A riqueza de um velho boêmio está em sua memória
Como a do herói está na narrativa de seus feitos de glória
Mas a riqueza do boêmio supera a do herói mais consagrado
Porque não foi feita de lutas e guerras, mas de um coração exagerado.




























Vozes da alta madrugada XXI


Esta noite não saí mais uma vez para cantar
Nos cantos escuros dos bares esse meu atual amor
Esta noite não sai mais uma vez para lançar
Aos ares meus gritos de louca paixão ao seu desprezo

Esta noite fiquei me arrastando pelo chão
Da casa como se fora um réptil agonizante
Esta noite esgotei todas as minhas forças
E os meus desejos viraram sombras

Nas quais se escondem os esquecimentos
Foi assim que a tua imagem desapareceu de mim
Esta noite fiquei mais leve e pude suportar
Meu corpo que se entregava ao chão sem vergonha

Esta noite consegui ficar no meu canto e reviver
Em outros muitos pensamentos outros amores
Que em nada me machucaram mesmo acabados de ser
Esta noite vivi de todos meus antigos amores seus favores.




























Vozes da alta madrugada XXII



Se sabemos ser aquela noite inesquecível
Quantas outras noites foram esquecidas
E que mereciam um mínimo registro
Ao menos na penumbra do nosso ócio?

O dia, o sol, a luz clara que fustiga
Elementos que vêm apagar os rastros
Deixados na noite que embriagou
A rudeza dos nossos seres

Para deixá-los menos conformados
Com as coleiras sociais que nos enforcam
E trazem à tona as tristezas mais fortes
De dar desânimo em notáveis otimistas

Há de se fazer um esforço qualquer
Para se recuperar lá do esquecimento
Uma memória que nos dê novo fôlego
Algo capaz de mutretar de novo nossas vidas,
Desejos e vontades.



























Vozes da alta madrugada XXIII


Inventamos uma mulher
E resolvemos fazer uma vigília
Em sua homenagem
Ao som de violão e poemas declamados

“Bachianinhas” na noite em sua madrugada
Uivavam música Lobos
“quero escrever os versos mais tristes esta noite”
Pablos cantavam aos ouvidos de mais uma amada

Uma mulher inventada não do nada da poesia
Mas uma mulher imaginada pelos perfis doados
Por muitos poetas e quase tocada pela lembrança
Das gregas saídas do mármore como doação mágica

De som musical, de fala sussurrada e de poesia declamada
De um imaginário abençoado pelo jardim florido sob as estrelas
Podíamos conviver com essas mulheres de quase tocá-las
Podíamos inventar um real romance ao nosso alcance e amá-las.































                        Personagens que se desinventaram
                        E que retornam aqui e agora
                        No que também se esvai nessa hora
                        Vivos e mortos celebrados em alucinação

                        Trambiqueiros  treinados no não ser
                        Livres de quaisquer sentimentos
                        Vivazes somente quando entram
                        Em nossa órbita ingênua e apta a sofrer

                       
   




































Venho então perante a esse seu desafio
Enfrentá-la com o pouco de ganância
Que me resta nessa rota quase perdida
Enfrento a sua invisível majestade

Nu por fora e por dentro para demonstrar
Que de pouco importa se vamos nos defrontar
De mãos nuas ou em armadura forjada a ouro
Estou pronto para ouvir o sinal para iniciarmos a luta

Sabemos de outros carnavais que tantos outros mortais
Jamais se ajoelharam diante da sua altiva e visível arrogância
As mulheres que choraram pela vida afora suas perdas e mágoas
Acabaram por encontrar o consolo desejado em finos véus

Em que as pesadas espadas não conseguiram cortar mesmo que safadas
No manejo
Somente finas lâminas polidas conseguiram a graça dos cortes
As sedas podiam após lançadas ao ar dividirem-se em duas partes
Iguais e com isso cobrir outra vez o rosto de mais duas mulheres envergonhadas
Pelo peso de carregarem outros filhos em seus doentes ventres.






























Lá se vão as madrugadas de quem delas se achavas donos
Lá se vai a madrugada na baixa do dólar
Lá se vai a madrugada em que se perderam os cornos
Lá se vão as madrugadas de estrelas em falso colar

Hoje é o lual em que a moçada se fica e não sei se finca
Hoje é o lual em que os desvalidos poetas se fantasiam de líricos
Hoje é o lual em que as maçãs não mais simbolizam o pecado
Hoje é o lual em que as serpentes são reverenciadas como sagradas

Nas manhãs dos pós-luais nada mais que ressentidas ressacas
As entorpecidas mulheres das praias riem das imagens das cerimônias com casacas
Seus parceiros rolam pela areia para se desenrolarem dos longos panos dos longos
O sal agora ajuda o sol a queimar peles e línguas diante de tanta água e céu

Nesses momentos as pipas divertem mais aos olhos do que os biquínis estampados
As curvas dos morros e de um mínimo horizonte tentam salvar idéias lentas
Nas faces indolentes dos que se julgam donos desse pedaço do planeta
Podemos contar os mil descaminhos que suas rugas e rusgas cavoucaram sem dó.






























Não ouço
Mais
O treme-terra
Dos meus antigos
Carnavais

Não ouço
A voz
Mole do ágil
No pandeiro

Não ouço
O moço
Que cantava
Sorrindo para a vida

Não sonho mais com
A moça em meu leito
Que pisava em
Camadas de nuvens
Para não acordar
O noivo enfastiado

Sem esse sonho
Não mais me reconheço
Penso as vezes que sonho acordado
Não é digno de ninguém o sonho
Em que não adormeço





















O xis do ch

   Vamos em frente, mas cuidado com o embaixo
   Em baixo baixoem baixou no abaixado chocho
   Xoxo de achochar o chochado de tanto boicotar
  Nos confins dos abismos os diamantes deliram

  Nos desejos que se incumbem de purificar
  Os que se enganam com o pouco pão
  Sem consultar qualquer palavra ou tipo de razão
  Conveniências que nidificam nos cadeados

  Tudo a continuar a florescer como no antes
  Como no depois e como no ato presente repetitivo
  O tempo é apenas o aperitivo de um degustar cósmico
  Vácuo de onde gera a loucura mais abjeta

  Vou de ir colher o fruto no seu melhor sabor
  Vou de ir já com água na boca e a cara melada
  Vou de encontro a esse singelo aperitivo
  Entregar-me de vez ao ventre da próxima madrugada.
  E morrer de namorar a última namorada

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