poesis poesis
(“ Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”)V.M.
Aperta
O peito
A despeito
Dos desejos
Das pílulas de vento
Ar ardente de respirar ofegante
Luzes escoltam as cabeças que não se dobram por dobrar
Alguém agora se põe na escuta
Os delirantes venceram nos sonhos sem glória suas tragédias
As pencas das doces uvas contemplavam os morangos envenenados
Naquela natureza inerte
Alguém atento ainda adverte:
Salivas
Salivas
Salivas
Há no fim do caminho
Outro caminho
O
De volta
Para o começo do caminhar por caminhar
Não há meio no sem fim
Não há fim para o fim
Tudo pode ser só o começo ainda
Enquanto por um momento
Não pensamos no fim
De eu não mais pensar em você
De você não mais pensar em mim
Eu prefiro
Firo
Giro
Iro
Irado firo e giro
Eu prefiro
Sobremesas naturais
Mesas naturais
O chão sem piso ou pano
Folhas de bananeiras
Bastam
E a dormir sob sombras refrescantes
Sob estrelas
Numa noite em que o sonho se fez
ausente
Busca
E busca busca
E busca busca e busca
Busca da felicidade
Busca da infelicidade
Sei e sabemos
Que se busca ser feliz
Por desejos de dentro ou de fora de nós
Mas como são tantos os desejantes
E tantos os objetos dos desejos
Que acabava virando lugar de emaranhado
Lugar de cada um que se depara multiplicado
Por tantos acúmulos de desejos possíveis e impossíveis
Aquele que é desejante da busca de ser infeliz
Por saber que a infelicidade vem montada na veracidade
Vive de se viver sempre no trágico
E faz da constante tensão seu impulso
No sentido da imperfeição
Os amantes da busca para ser feliz
Os desamantes da busca para o valer infeliz
Acertam as horas pelo mesmo raio de sol a prumo
Sobre as suas cabeças no zero da sombra
Sob os seu pés que giram como os ponteiros de um relógio
Que na hora certa
Dará o veredicto da paz indesejada.
Nada mais me poderá tocar a alma
Com tal intensidade do que o seu abraço
Disso duvido o dó
Por aqui e pelos cafundós do mundo
Fiquei abobado e desacelerado
Sem pensar que por assim me abraçar
Toda a minha vida fosse tomar outro rumo
Depois dessa completude tão simples
Nas incertas reviravoltas da vida ainda sei que verei
Brotarem rosas que plantei herdadas de minha mãe
Verei ainda as ondas do mar em meu muito sonhar com águas
Doces salgadas frias geladas quentes mornas
Em todo amanhecer
Em todo entardecer
Verei moças bonitas impondo alegria ao lugar em que caminham
De volta a pisarem sobre as marcas na areia deixadas na ida
Tantas as coisas que verei que se por um instante eu me esquecer
Desse momento de ternura que me deu essa pequena criança
É porque fui exagerado egoísta e só quis fluir a vida só em pré-juízos
Essa criança é um traço presente na minha história presente
Esculpido com a marca
De pensamento ardente na tela da minha mente embevecida
Não há volta uma vez dito o não dito maldito
Há no dito maldito algo que não foi dito
Que causa a impressão de dito e remete
Ao singular desconforto porque não pode ser reedito
Fico no dito pelo não dito como se fora algo mítico
Levado pelo contar que tira e põe ações e temperos
Ao bel prazer que compraz com prazeres e desprazeres
Por conta das muitas impensadas falas por falar
Nas manhãs bem sucedidas do poeta que canta por cantar
Que declama poesias por declamar sem se torturar em escritas
Nessas manhãs desses dias que são poucos em fé lúcida
Nesses dias um leve sopro adverte de que somos insolúveis
Ao tentar contar meus sonhos a mim mesmo
Não mais consigo elaborar as mínimas notas
E em desconforto pela pouca memória
Culpo meu censor que esconde minha viola
Sentir por sentir
Sentir sem chorar
Apenas um sentimento rasteiro
Sem sal
Sem açúcar
Sem média
Sem vergonha
Sentir por sentir
É assim mesmo pouco sentir
Sentir para valer
É sentir com habilidade prática e teórica
É sentir como faculdade de sentir
Um sentimento que extravasa o poder que domina o outro
É um outro que leva ao êxtase indomável
Um enigma que se apresenta para ser galopado.
Essa palavra
Não expressa
Meu sentimento
Que acho de amor
Não há cor que possa dar conta
Das imagens que molduram sua imagem
Não há como controlar minha lucidez zangada
Meus arroubos de pura representação
Em harmonia com as mais decantadas bobeiras
Essa palavra
É pouca penca para dar equilíbrio ao meu profundo querer
Nas vibrações que maltratam meu interior
Penso em berrar como um porco assassinado a punhal
Por imperitas mãos que se lavam em suor e sangue.
Aas estrelas desceram do céu
E ficaram ali no fundo do rio
Starsriver
Mergulhei naquele céu da noite
Para catar estrelas
Com as mãos
Com a boca
As estrelas que apanhei
Guardei num estojo de pescador
Entre as tantas tralhas
Chumbos e anzóis
Nunca mais abri aquela caixa
E só agora
Após muitos anos
Notei que há um vazio de um lado do céu
Um vazio de estrelas
O estojo e aquelas estrelas
Desapareceram para sempre
De não se achar em
Lugar nenhum
Não há alma
Ou infinito que as
Abrigue.
Acidente
Feliz acidente
Acidentalmente trombamos na esquina
E terminamos na cama
Na cama damos um fim ao acidental
E chegamos ao final
Na lembrança após alguns anos
Ficou a farofa ao vento
Farinha espalhada no riso do firmamento
Da firma reconhecida no inventário da vida
Algo que desse algo de vago no espaço
Um tempo para se pensar no inexato
Dúvidas que se evaporam no extremo do nada
As cantigas ainda ressoam em algum vazio
Do nosso ser
Para que a vida não entregue de toda danada
- Aos inventores das cristalizações das mentes
Com as mais poderosas invisíveis correntes -
Sua derradeira possibilidade de se reinventar.
Ali
No barranco
Em que se precipita o precipício
Alguém pensa que o espaço
Faz parte do seu ser vazio de lugar e tempo
Ali
No momento em que se pensa em asas
Para acompanhar um pássaro agourento que passa
Ali
Ele se repousa sem pensar conflitos
Apenas deseja algo que o impele para o sempre do nada
Ali
Suas convicções mais teimosas se diluíram como vapor
Inalado por feiticeiros forjados nas velhas tradições
Ali
No exato momento da sua mais elevada de todas as decisões
Uma voz em seu interior
Ressoa imperativa, a ralhar com ele
A dizer que se há culpa por algo
A culpa é do ali
E não dele.
Porque Hoje é Sábado
( “Mesmo o amor que não compensa
é melhor que a solidão” – V.M.)
Fui ver se era de verdade
Se meus olhos
A esfregá-los com vigor
Viam de ouvir
Ouviam de ver
Cheirei também para ver se cheiro havia
Quase toquei com o olhar
Para sentir se ali havia substância
Se haveria boa qualidade em tal quantidade de palavras
Pensei em estabelecer relações possíveis com aquele monólogo
impossível
Lugar e tempo eram visíveis e quase risíveis naquela arena
Disfarçada de cabeça insofismável
Estabeleci posição de defesa para preparar o ataque que pensei retribuir
As condições estavam assim postas para o embate
Não fora a ação já prevista e aludida com graça
Por alguém que já se vira em passado remoto
Atacada sem tréguas
Pela mesma e veterana chama da paixão.
(Para o Lú grifar as dez categorias aristotélicas)
Fácil falar do enigma
Difícil é decifrar o enigmático
Fácil apanhar a fruta madura à altura da mão
Na árvore ou na fruteira
Difícil é conter a água na boca das frutas marcantes
O tamarindo a arrepiar só de lembrar
Difícil é se falar jambo
Sem se sentir o perfume a se inserir por nosso dentro
Fácil é dizer que para além dos prazeres e das dores
Habitam as coisas que se perderam de si mesmas
Difícil dar-lhes nomes sem que se cometa risível queda
No escorregadio céu sem chão do insondável
Tudo muito fácil
Tudo muito difícil
Esse é o ofício de não se viver em plenitude
Esse é o ofício de se viver a incompletude
Nada mais lúcido do que se tentar desprezar
Esse fantasma que se nos assombra com o nome
De finitude
a nos amalucar.
Venho furar feitos e feitiços
Venho vender férias e comprar futilidades
Venho enquadrar meus desejos
Aos desejos que duvido sejam seus
Venho até aqui para testar minha razão
Sabedor das armadilhas desse armazém de míseros mistérios
Venho também para aqui parar por uns tempos
Até as manhãs deixarem de ser amas para as calúnias
E os meus olhos não se importarem mais com coxas
E os meus dedos não se incomodarem mais com seios
E meus desejos e meus lábios não mais se humilharem sem beijos
E nesses dias que virão por virem impiedosos
Dou meu testemunho em respeito aos que se sabem – ardilosos -
Viverem todos os momentos da danada da vida e que como contas preciosas
Carregam esses tempos como amuletos
Dependurados nos pescoços por simples fios de forte barbante
Lúcidos com o encanto que provocam as muitas belezas naturais
Como não invejarmos esse respirar gostoso
Que dá a dose exata de cada dia bem vivido
Com, sem e apesar das piruetas e moléstias excitantes
De cada paixão?
Há um grito caído no chão
A manteiga do pão virada para o chão
Minhas mágoas roladas pelo chão
Meus achismos degolados pairam no chão
Há no chão um meu pé em cada chão
Acho o chão chato só na vertical
Rolo pelo chão de todos os pólos meus pelos ariscos tesos
No chão da cobertura a abertura para o céu aberto
Sem nuvens podemos pisar o chão do firmamento
Sem engodo lírico apenas refém do razoável imaginário
No chão que me roubaram um dia ainda em vida
Pude me dar conta de que a música que ouvira
Era para apenas ninar em mim o menino que atônito carregava
Nas costas montado pelo pescoço minha cabeça de tambor
Lugar- tenente
São minhas mínimas alegrias e minhas dosadas dores divididas no meu raso memorial
Que se lançam sempre em risos e choros de saudade líquida e mortal
Desígnios de minha solitária e insondável incompletude
Assim como flores cristalizadas num vaso cuja argila se libertou
Das mãos que lhe dera(m) forma.
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