I
Era um rumo imposto
Portanto, obrigatório
E assim por ser
É claro, alguém o desprezaria
Muitas vidas se foram antes dos primeiros protestos
Muitos foram aqueles que nada questionaram
E cumpriram tarefas que humilhavam os humanos
As míseras esmolas faziam parte do castigo
Foram muitos os pesadelos que alertaram os sobreviventes
Mas foi de um sonho mal sonhado perdido no meio dos medos
Que alertou alguém para uma primeira fuga para um novo sem rumo
E notada sua ausência outros tiveram então o mesmo atrevimento
Juntos estão a colher idéias de novos rumos
Mesmo que não se saiba direito que rumos são esses
Mas dali já se vislumbra pelo menos o horizonte
Não há mais muros que impeçam que tomem qualquer rumo.
II
Os que se puseram a ficar olhando para o passado
Sem ajuizar as boas e as más fazes como se essas
Fossem notícias descartadas com os jornais de ontem
Como se a vida navegasse acima da corrente como um balão
Os que se puseram a ficar ruminando o passado
E deixaram-se engordar em memórias passíveis de serem descartadas
Esses merecem essa sucata de rancores que visitam suas cabeças
Além do mais deixam trancadas as janelas por onde poderiam fugir
Janelas da alma dizem alguns dos mais avisados
Esses são aqueles que souberam conduzir com um mínimo
De bom senso o mínimo do senso comum que de engano
Em engano vai acumulando algum saber pelos descaminhos
Aquele saber que alguns velhos com graça deixam transparecer
Quando dizem que as suas experiências estão intimamente ligadas
Aos seus muitos anos de vivência em que muito quebraram suas caras
Sabem eles que seus atos são repetições melhoradas de seus mil erros.
III
O que pode significar tantas quinquilharias
Acumuladas no quarto de despejo por tantos anos
E ali sem narrativa qualquer
Sem um sinal tênue de um resumo qualquer
Qualquer que seja a referência humana
A não ser a do objeto pelo objeto
A não ser a de quem talhou o que há de madeira
Ou fundiu o que há de metal
Teceu alguém aquela cesta de palha
O vime do balaio foi manuseado
As cortinas em ouro por alguém foram bordadas
Os cristais foram assoprados
De que adiantou alguém dizer tudo isso é meu
De que momentos de posse estúpida viveram certos sujeitos
Das coisas não se sabe ao certo os destinos nelas embutidos
Talvez um museu na sua história ou o ferro velho do seu Dirceu.
IV
Se uma única vez você se fez de anormal
Saiu a cantar pelas ruas sem ser carnaval
Se suas roupas eram peças de fantasias
Essa ficou a sua marca registrada: manias
Mas como manias se fora uma única vez?
É porque é assim mesmo que são tratados os alienados
Basta um único desvio, um único evento para ser cabeça de vento
Setenta anos depois dirão: lá vai o velhinho malucado
Há um consolo nessa vida assim contada
Pois que você sempre foi gente vista e notada
Pois não tem gente que passa pela vida sem sentido
Algum nem mesmo para ser gozada ou apontada?
Quantas vezes escondidos no escuro de nós mesmos
Não traçamos aventuras que sabemos tão impossíveis
Mas que imaginamos como eventos ou desejos possíveis
Só para consolarmos a falta de coragem em que vivemos?
V
Ficamos um olhando para a cara do outro
E se perguntando o que fora feito do outro
Que éramos há tão pouco tempo aquele outro
Quando ainda não nos tornamos esse outro
De tempos em tempos vemos em nós um outro
Mesmo sabendo de que um dia após o outro
Envelhecemos e não nos damos conta no espelho o outro
Mas sabemos que a cada dia vem um outro e um outro e um outro
Esses que vêm pela via fácil de vir sempre a vencer o outro
Que em nós a cada momento se vai a virar em outro
Que vitória é essa que nos conta da derrota diária do outro
De quantos outros precisaremos para nos dar conta
De que já somos daqui a pouco outro?
Mais do que isso, aqui e agora, já somos outro
Enquanto nos outros de tempos em tempos achamos outros
Outros somos a cada tempo desses em que já somos também outros.
VI
As folhas atapetavam nosso quarto
As mil poesias que escrevera para você
Agora eram pisadas sem critério algum
Tão distante a cabeça dos pés
Não mais escrevi uma só linha para falar
Do nosso amor que pensávamos inesgotável
Não mais considerei os escritos como provas
Das nossas mais inconfessáveis confissões
Fiquei a ver os pássaros que ao longe
Voam e dão riscos na moldura da janela
Não mais voam soltos meus pensamentos
Em busca da tua imagem antes adorada
Finquei meu orgulho nesse falso bate pé
De pisotear papel em cujas faces poesias sorriam
Elas que queriam tanto dizer agora nada significam
Não sei por que amasso o papel com a mesma fé.
VII
No limiar das nossas possibilidades
(E como subtítulo)
Uma retórica sobre os devaneios
Inscrevi algo no reino das memórias
A partir de hoje, pensei, vou registrar
O céu e o inferno, o lírico e o cáustico
De mim mesmo nesse acaso por que passamos
Nesta terra de vida e morte sempre anunciadas
Doarei meus sentimentos aos românticos e aos sentimentais
Minhas penas e sofrimentos banais aos inveterados sofredores
Minhas tristezas mais profundas aos profetas das esquinas
E meus versos mais surreais aos poetas das concepções esquisitas
Aos poetas que venham como eu sentir inveja
De outros poetas e digam sempre que leram
Algum poema como se fossem criações próprias
Apenas, pergunto:
“Também não está morto para sempre quem assim covardemente peleia?”
VIII
Digamos que o chão estivesse à altura dos nossos olhos
Digamos que sob nossos pés os porões escondessem sofrimentos
Digamos que acima de nós ventos cantantes seduzissem nossa mente
Digamos que deitássemos nesse chão e então dele ouvíssemos histórias
Poderíamos por vezes acudirmos a nós mesmos quando estressados?
Poderíamos dar algumas gotas de um fino elixir às nossas idéias
Que viajam em nosso entorno como se fossem minúsculos pássaros
E em deleite pudéssemos viajar em sonhos prazerosos em demasia
Digamos que do chão pudéssemos tirar jogos que brincassem
Com nossos desejos até que eles se cansassem desse muito gozar
Digamos que a cada respiração colhêssemos os mesmos aromas
Das manhãs que se competem em ser a mais delas a luminosa
Digamos que agora vamos virar a face e ouvir com o outro ouvido
O mesmo chão que se dar sem razão alguma a se consultar
Outras seriam as notícias contadas pelas mesmas vozes
Digamos que já seríamos outros seres a ouvirem outros contos de fadas.
Resumos dos sem rumos IX
Já disseram que somos uma espetacular pintura inacabada?
Já disseram que sempre há de faltar a óbvia última pincelada?
Que quadro afinal será pintado se nele jogamos todos os dias as nossas tintas?
Se mudamos tanto durante o percurso a obra terá essas nossas múltiplas caras?
A cada vez que olhamos no espelho achamos, só achamos, que somos os mesmos
Pois não somos nem em pensamento tanto quanto não somos em peles e ossos
Nossos cabelos caem em nossos travesseiros independentes dos sonhos ou pesadelos
Nossas lembranças registradas nas fotografias não dão o testemunho do nosso ir-se?
Se somos assim tão óbvios e muitas vezes previsíveis e risíveis
Por que nos achamos tantas vezes uns irados e um tanto quanto imprevisíveis?
Se assim não fora não estaríamos “no melhor dos mundos possíveis”?
Por que queremos melhorar esse mundo se ele nos degrada sem piedade?
Aqueles que acreditam que não somos daqui desta terra e água
E que o que vemos e sentimos são apenas substâncias iguais aos sonhos
Serão eles perseguidos por outros que mentem e se acham os donos da vida?
Podemos prever para essa encenação um final que dependa de um milagre?
Resumos dos sem rumos X
Um pé
Depois o outro
O começo
Da trilha
Que se desenha
Após
A aventura
Para fora da caverna
Os frutos
Às mãos
Espinhos nos pés
A água brota da terra
Como o leite da mãe
Com a diferença que a podemos beber
Até saciar mesmo após desmamados
Podemos subir nas árvores para ver o mais longe
Com o horizonte ali delineado
Podemos imaginar o além
Para se saber o que é bom e o que não é bom
Alguns de nós pagarão com a vida o aprendizado
Pelo instinto não sabemos distinguir os venenos
Nasce assim a nossa memória
Junto com o primeiro beijo e seu paladar
Que nos fez olhar nos olhos de quem a nós se junta
Tanto para odiar quanto para amar.
Resumos dos sem rumos XI
Alguma coisa se deve no “caderno de fiado”
Quando o sonho recorrente nos avisa
Sem ninguém pronunciar palavra
Que lá está a conta endiabrada no “pendurado”
As tentações de que tanto temos vergonha
De que descubram os mais íntimos
As gozações de que fazemos os outros alvos
Agora se voltam contra nós mesmos
Tudo não é assim tão claro nos sonhos
Os sonhos também se sonham e manobram
Pelos caminhos sem pontes nos vácuos dos cérebros
Vão sempre de mãos dadas e usam as mesmas luvas de um mágico
Eles são muitos sonhos e por muitos serem sonhos dos sonhos
Eles usam sem elucubrações as mesmas mãos abstratas que comandam as paixões
Essas aprisionam as nossas mais sensatas opiniões e lamentos
Dão multiplicidade aos nossos bons sensos e os dominam
Nas mesmas e insondáveis caricaturas que temos do faroleiro
Lembranças dos sonhos que imploram dês-velamentos de naufrágios
Que vivem outras vidas dentro de nós sem sabermos de seus refúgios
E é assim mesmo tão simples quanto dar o suspiro derradeiro.
O rumo que tomamos se arrumou como morro
Que se sobrepõe a outro morro e tantos outros
Não é que tudo vira daí para frente em rumos
Impensados de deixar babado qualquer barbado?
No sem rumo vamos a desfrutar novos rumos
Sem a antevisão enganosa dos desejos que extasiam
E se jogam nas fantasias obscurecendo o real
Que se faz de luz e trevas nos desenhos inventados
Pelas crianças com seus lápis coloridos aonde vivem
O mundo idealizado em formas de desconstruídos
Cubos tortos quadrados desajeitados e redondos ovóides
Cada linha qual galinha tem o frescor do ciscar desordens
No fim vemos que o rumo tomado nada a ver tem com o
Seu impulso inicial que de tão mal calculado virou final
Sem ponta do outro lado de quem pensou o rumo primeiro
O rumo das coisas escondem algo fora do faro animal.
Do pó ao pó empoeirado de dar dó
Qüiproquó no enlace de tanto cipó
Para pouco Tarzan com aquele chã
E charme de peitoril livre e saudável
Todos que viram os primeiros berros
Sentiram vontade de também berrar
E foi assim por imitação que todos
Começaram a gritar como perus e galos
Nas tantas tentativas de voar de galho em galho
De saltar entre telhados em vôos calculados
Muitos de nós não fôramos simples imitadores
As façanhas se tornaram rotinas nossas
Um ou outro furava uma perna aqui
Quebrava um braço no futebol do acolá
Nada que não desse remendo e futuro jeito
O rumo de cada um se reinventava no jogo
Da brincadeira.
O remo na água tenta dar rumo exigido pelo remador
Os navegantes sabem o poder da água e do remar
O amador sabe brincar pelas beiras tendo onde encostar
O aventureiro se mete no sem barranco ou ponto de se apoitar
Eram assim também os meus desejos diante daquela moça bonita
Não era de deixar a gente brincar no raso
Nas profundezas nem pensar por ali passar
Dona de todos os olhares e espaços ao seu redor
Assim vivia a dançar e espalhar seus perfumes tão silvestres
Pelas nossas narinas de fazer ciúmes às outras tantas meninas
O seu passar fazia o vento mais ventar do que nos refrescar
Sua presença arrastava pelos cascalhos nossos desejos submissos
Feridos nos corpos e nas almas éramos todos assim oprimidos
Não restava um que não suspirasse um suspiro de vida e de morte
Não era para o nosso bico. Não, definitivamente, não era nossa sorte
Para tal desfrute só mesmo um filho de dono de cartório para consorte.
Paciência e impaciência bebem agora de onde jorram
As mesmas ilusões
Para se chegar a tal patamar houve a entrega heróica
De muitas gerações
Nos tempos que se foram todos comiam de tudo e todos
Em apetite assaz voraz
Alguns dentes se tornaram depois inúteis
E hibernaram de vez
Os ouvidos diminuíram o poder da audição
O olfato perdeu em muito a originalidade
Haverá dia em que a boca será apenas um orifício
Menor que o anal
Hoje é a conta bancária que arrepia a pele de casal
Haverá dia em que os sentidos serão apenas
Captados do ar
E comeremos o que filtrarmos de partículas flutuantes
Com o mesmo canudinho com que bebíamos refrigerantes
O mais catastrófico de se ver é que não é mais imaginação
É que assim como estamos para os primatas
Estaremos para os seres compostos em laboratórios do amanhã
Não haverá nem na saudade a passagem do padeiro entregando o pão,
Do leiteiro entregando o leite em garrafa de vidro
Ninguém contará a maior glória burguesa de viver as tantas mamatas
Com isso – no futuro – os sobreviventes verão que não se perdeu nadas.
Quem não se sentiu sitiado diante de tanta voraz legalidade
Que o cercou em determinado momento em surpresa e bote
E ainda absorto por não se conceber em tal situação
Não se fez vivaz o desespero de quem não se reconhece?
Não sou eu a estar ali
Quem é então?
Esse outro que não me sou
Sou apenas o acaso ali incorporado?
Não há “jeitinho” que mamãe dava com afeto sem igual
Não há o mínimo diálogo com quem se acha a própria lei personificada
Não há lógica que de conta de explicar e justificar ao mesmo tempo
As causas que levaram ao vício meu corpo que insisto não reconhecer
Há de haver uma chave que abra a torneira que faz chover
Há de haver um escondido sentido nos arredores do bem fazer
Há de haver ali um mel estragado que foi envenenado
Em lúcida e premeditada obra de um quase humano, um quase ser
Instante
Há ali à tua frente
Como se real fosse
Um objeto raro que parece de ouro
E, aparentemente, incrustado de diamantes
Você não se dá conta
Se está acordada ou sonhando
O objeto agora parece se mexer
E em seguida resmungar
O teu espanto agora se acelera
E teu corpo se contorce aflito
Você se pergunta toda em suor
Daquilo o significado maior
Estava a sonhar
Estava em pesadelo
Estava a alucinar?
Nada disso
Você
Só estava a ninar
Falsar
A valsa com farsa
Foi aquela valsa comparsa
Das múltiplas intrigas
Descompassadas de nosso interior
Se é que lá mora alguma coisa estável
Se é que lá seja possível apenas tangenciar o insondável
Não é exemplar esse falso dilema:
“Um impossível que se faz possível”?
Não fora nos sonhos algo percebido
Não fora em cada embriagues algo esquecido
Não fora cada elemento da natureza amado
Como se tudo no mundo fora para isso criado?
Sem cerimônia já que estamos no mesmo baile
No mesmo barco de papel a navegar enxurradas
De sons e ondas de adrenalinas mal calculadas
Dancemos ao acaso como por acaso viajei seu sitio.
Acordamos todos os dias para retomarmos
o rumo dos sem rumos
essa certeira incerteza
sempre a compor o nosso cotidiano
a vergar nossas resistências físicas
de doer em tudo em nós
corpo e alma
matéria e espírito
mais escondido do que essas possibilidades
que compõem as nossas andanças tortas
estão lá aqueles fantasmas que contaminam
um quase nada de tão ínfimo em que moram
são quase idéias que vem e que se vão
são quase possibilidades que se sustentam
das quase impossibilidades sequer imaginadas
ainda por quem carrega meio torto a sustentar
tal possível energia destinada por sua natureza
ao nada que a está a esperar na casa da maior tristeza.
Luana da Nilce
Um cheirinho agora toma conta da casa
Com ela vem um risinho que toca a alma
Um gritinho que promete uma cantora
Uma avó que se encanta e de doida desembolora
Quem não ganha com essa presença?
Talvez um vizinho intolerante
Quem sabe uma ave indiferente
Que plana no azul satisfeita sua pança
Olho para a criança e vejo o mistério
Não sei mais quem sou nesse contemplar
Busco ser sincero no meu olhar e saio a buscar
Um imaginar
Que me dê um pouco de qualquer critério
Esse cheirinho me faz parar de pensar
Sou todo olfato e tato e um velho pato
Que está a viver em outro ser o que não foi
Não é para se tropeçar no espanto e cair no encanto?
Resumo dos sem rumos 22
Se não enxergamos mais no velho mapa o rumo
Que ali estava artisticamente desenhado
Não é porque a nossa vista enfraqueceu
O mapa se consome e se apaga também
Com o que é próprio do tempo ser carcomido
Não se apagaram muitas das nossas paixões
Muito tempo depois dos seus naufrágios?
Não se refugiaram no esquecimento o frescor
Que sentíamos dos nossos amores mais calorosos?
Se não enxergamos mais à mesa à nossa frente
Nossos pais e seus gestos de satisfação por nós demonstradas
Se não ouvimos mais as suas risadas abastadas
O que podemos cobrar então da nossa sanidade?
Há de haver nos que caíram no “sem rumo”
Tantas imagens das tantas estradas que percorreram
Que há de despertar alguma inveja no sedentário
Que se contenta com sua bunda ser o centro do sistema planetário.
Um monte
Interrompe
O rumo
Sobra subir
Contornar
Abrir um túnel
Voar por cima
Que por baixo não dá
Só se fosse um monte embaixo d’água
Num nadar de “avoar” vôo nadado
Voz baixa para falar dos acontecimentos
Ao pé do monte
Se não morro
De morte matada
Ou de susto dos fantasmas
Das tenebrosas noites de breu
Alguém propôs veicular notícia
Dessas aparições por aqueles lados
Os mais valentes para lá foram marrudos
E voltaram de porre em carroceria de caminhão
Amontoados
Por ali não se viram mais namorados
Quem inventou a história sabia que viria dia
Tudo se acalmaria
E os fantasmas dessa graça
Por força do medo e tradição
Sem salários nem folgas trabalhariam.
RESUMOS DOS SEM RUMOS XXIV
Ficar
É ficar de tantas formas
Rir e chorar
Alegria onde doe a sua saudade
É o cheiro de gente que mata
Aquele que vive na sua não vive não
Vive
Vive porque tem que viver
Não vive
Não vive porque se deixa viver
Não estranha
Não se afasta em pensamento da doença
Não se faz de vivaz quando preciso
Deixa-se levar
E por isso é levado
Quando deveria ser no mínimo levado da peste
Quebrar encantos que se escondem pelos cantos
Cantar enquanto os ouvidos atentos ouvem lamentos
Ficar
Por um dia ao sol de todo o dia
Por uma noite enquanto durar o luar
Contar
Contar tantos sonhos como por encanto
Esquecidos em algum lugar mágico da cabeça
Doses de uma busca que não cessa
E que perereca
E que coaxa
E que move como uma nave
Ave
Nas gotas das nossas lágrimas
O barco do desejo que vive
No fundo dos nossos olhos
E que pensa em ser real
Sem nunca sê-lo.
Sabe aquele imperdível livro que começamos a ler
Inúmeras vezes e mais uma o deixamos de lado
Lá pela página trinta e após abandoná-lo na retomada
Temos que começar tudo de novo em leitura e compreensão?
Pois bem, bem de se ler e entender esse mesmo livro
Já sem surpresa ou graça de tanto ouvir e ler os debates
Que por ele se pensam consagrar literatos em evasivas sessões literárias
Talvez vire fita e facilite só o que a conquista do difícil recompensa
Viramos essa página e outro livro nos atenta e tenta
E um outro, e mais um até, talvez, para o chato dessa hora
Uns vinte livros iniciados e em seguida desprezados
O que fica em nós dessas leituras desses começos dos livros?
Será que poderemos aproveitar algo dessas histórias
Desses começos em que o autor tenta ganhar o leitor?
Será que somadas todas essas olhadas das primeiras páginas
Não estaremos sempre iniciando uma premeditada viagem
Que desejamos que venha durar no sempre do não conformismo?
Incontáveis velas
A velejarem sem tréguas
Assim
Foram nossos incontáveis
Desejos
Alguém pregou rosas no céu
Alguém filmou estrelas marinhas
Cintilantes no fundo dos oceanos
Dos oceanos viemos rastejantes
Da terra haveremos de evaporar
Para qualquer ramo de estrelas
Não haverá lembrança possível
Da nossa estadia perdida na tarde
Que morre como a última nota musical
De uma canção que você tanto amava
E teimava em repeti-la todo o seu tempo
De viver
Que ouvido poderá saboreá-la como se
Alguém que devorasse a própria alma?
Podemos até pensar que exista algo no além
Podemos até morrer com essa doce ilusão
Mesmo assim não fica incerto esse gosto
E que tanto aqui quanto lá
Tudo não passa de coisa daquele
Que é o mais cínico dos gênios do
Engodo
Aquele que brincou
Brinca
E
Brincará
Com o que temos de mais frágil e angustiante
Que é acreditarmos
Que ainda poderemos continuar a sonhar
Acordados ou na cama
De que poderemos dizer como o poeta
De um personagem mulato:
“Tudo ama:
As estrelas no céu,
Os insetos na lama” (M D P)
RESUMOS DOS SEM RUMOS XXVII
Mesmo se nós nos deixamos levar
Isso foi uma escolha
Que não nos deixou ficar
Como coisa que encalha
Sempre escolhemos presta atenção
Só não escolhemos colher
E comer frutos verdes no verão
Mastigar os próprios dentes
E ir dormir na prisão
Porque pedimos a nossa condenação
Em função disso haja ação
Pois não escolhemos
O homem uma mulher desejar
Uma mulher um homem seduzir
Um homem outro homem amar
Uma mulher outra mulher adorar?
Todos não querem gozar?
Gozaram?
Quando ainda não sabemos escolher
Podemos ser concebidos e até nascer
Podemos escolher antecipar a morte e morrer
Podemos até gostar da vida e escolher viver
De todas as escolhas que se nos oferecem o destino
Morada habitual da incerteza
Só nos damos conta de encarar essa realidade
É quando descobrimos no “adulto que somos o antigo menino”
Tudo pode ser comido pela mentira mais voraz
Não essa mais infantil e primitiva veracidade
Essa coisa de criança
Que anda solta pela cidade
Às vezes com às vezes sem a provisória da sorte
Coisa que vagueia por aí com a multidão em adesão mística
Sem a lembrança do que pensa, escolhe e faz.
RESUMOS DOS SEM RUMOS (XXVIII)
Toma-se novo rumo por um velho caminho
Tão velho que por essa picada um nosso
Parente ainda encostava as mãos no chão
Havia acabado de abandonar na árvore seu ninho
Toma-se novo rumo mudando-se de idéias
E ao partir para as novas delas onde cada uma se esconde
Percebe-se que de novo elas nada de garantido têm
O mínimo e o maior pensar de longe desavisados vêm
Toma-se outra vez novo rumo em direção ao já visto
Só para conferir cada pensamento já pensado
Nessa volta ao passado descobrimos absortos
Que por essa via nada achamos, são apenas caminhos tortos
Toma-se agora o rumo do que pode haver de mais singelo
Ao som de um carcomido realejo
É a busca de algum saber e entendimento para rumar sereno
Pelos caminhos de quem a vida - como um valioso relicário - conheça
Por estradas que se façam suaves e não conduzam ao temerário
Pois agora somos informados de que é aí que mora o maior perigo
Esses são os caminhos da nossa própria cabeça que carregamos
Num momento como prêmio noutro como castigo
Tudo tão velho que já mora no esquecimento quem um dia tanto amamos
Tão velha nossa inverdade que suporta qualquer dor de amor ou vã dieta
Tão velha a nossa fé na verdade que já se esqueceu de como tanto se andou de quatro
E há tão pouco tempo se pedalou no equilíbrio fluido de uma bicicleta.
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