quinta-feira, 28 de abril de 2011

MINI CONTO VI



Três poetas em minha porta aberta
Três poetas diferentes
Três amigos que se toleravam
Três vidas em muitas vidas

Um deles amava outros poetas
Como amava toda a poesia

O outro deles que odiava outros poetas
Amava algumas poesias

O terceiro deles não amava outros poetas
E não chegava a odiar as poesias

No entanto, eram poetas

No segundo tempo da vida
Foram morar em lugares diferentes

Quando, anos após, se reencontraram

O deles que amava a poesia
Como amava a outros poetas
Passara a odiar outros poetas
E a amar só algumas poesias

O outro que odiava outros poetas
E amava algumas poesias
Passou a amar outros poetas
E adorar toda a poesia

O terceiro apartou poetas que amava
Dos poetas que odiava
Apartou as poesias que desprezava
Das poesias que amava

Foi o último encontro deles
Saíram para lá de taciturnos
Certos de que já não se desentendiam
Como antigamente
Mais certos ainda de que as suas convicções
Tornaram-se voláteis
E que as distâncias e os meios moldam os sujeitos

E eu que carrego os três poetas na cabeça
Fico com a sensação de peito vazio
Inclinado em meu eixo
Mas de nada padeço

Desfruto como música esses desencontros
No tempo e no espaço
Com portas e janelas abertas para só ajuizar
O que me interessa
Nas noites em que penso sem pressa
Na encaracolada necessidade de negar
As seduções caducas do amor






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