segunda-feira, 15 de agosto de 2011

PLÁCIDO REPOUSO

Plácido Repouso
Quando num dia de aconchego em rede a balançar
Naquele entardecer em que se misturam gozo e nostalgia
Num vaivém que leva a sonhar com fama e glória
Em que só sonhar já está bom demais porque da glória e da fama
Todos que por ali as saboreiam reclamam da falta de privacidade
Por serem assediados em qualquer canto da cidade
Quem como eles não podem mais andar descalços
Pelos gramados dos parques numa manhã de outono
Quem como eles só se deslocam em peças de poderoso aço
Blindados que estão de balas de grosso calibre e dos olhares
De louca paixão dos admiradores que degustariam suas carnes cruas
A solidão de um busto em bronze numa praça na mais fria madrugada
 É menor que a deles
Para se sentirem vingados dessas e outras geladas
 Os consolos que a sociedade lhes oferece são: grana e fama
Que são as suas amáveis companheiras deitadas cada uma de um lado
De suas esparsas e encantadas infantis camas carregadas de sonhos amargurados.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

SUCESSO

Sucesso
Londres e ladrões por onde escoam os nobres
Provectos ladrões na Londres por onde sonham os insensatos
Ladram os consuetudinários cães londrinos indiferentes a tanta insensatez
Nos guetos nas madrugadas dos desesperados se acumulam em fome e dor os avindos do mundo todo
Uivam os pecadores confessos desesperados no frio ou no calor
 No verão bretão que amanheceu hoje em fogo e fumaça
Venho recordar de Jean Charles de Menezes que também pensou em melhorar
 De vida na vida a ele prometida assim como a todos os esperançosos inquietos
 Em viva vontade de se tornar ele também um civilizado ser
Jean para isso precisava ter força de vontade e criatividade
E escolheu essa culta cidade como o local de duelar vida e trampo
E o que conseguiu ali foi só negociar seu corpo com algumas balas de um medroso despreparado
E assim, só deixar – o que não é pouco – o seu querer viver melhor fora do Brasil
Esse Brasil que é exportador das mais verdadeiras
Falsas esperanças
Jean poderia ter escolhido Londrina
Que é tão aqui mais perto
E correr outro tipo de risco menos incerto
Talvez o calote de algum 171 esperto
Um assalto de pivete munido de canivete
Um batedor de carteira ressuscitado de outros tempos
Nunca pensara Jean emigrar para fora do tempo
Tão pobre como este inócuo relato aqui perdido

quarta-feira, 27 de julho de 2011

ATORES

Atores

Ajudar o sujeito a ser ator de sua própria história
É isso que eu gostaria de hacer nestes dias em que espairecer
Ofende até a paisagem aonde alguém espairece
Sem dar amparo aos qüiproquós soltos na atmosfera
Cheia de fantasmas prontos a golpear sustos
De darem arrepios horripilantes de deixar cabelos em crina
A mente tão solta e volúvel de se levar nem a simples rumos
Sem sintonia nos assuntos e pés a caminharem em nuvens
E magias que detonam o sonhar em sonhos concretos
Donde despertam todos os medos infantis e suas ânsias
E conduzem ao pânico dos acordados em que a própria
Sombra assume o papel destinado aos fantasmas das fantasias
Enquanto isso me bate uma dúvida a mais trivial
Eu me ajudo a ser ator da minha própria história
Afinal?   

terça-feira, 26 de julho de 2011

Espírito e Sal

Espírito e Sal
Hoje assisti à aula que fala do poder da luz
Para a formação de uma substância que dá
Vida às plantas de todos os jardins do planeta
Não se esquecendo aqui das urtigas que ficam a coçar
Também nas nossas lembranças para o nosso todo sempre

Penso então na realidade da moral ou das morais
Somos tão rigorosos para com a avaliação dos outros
Nas duas mãos que conduzem a essa ambigüidade
E por outro lado somos condescendentes conosco mesmos
Tanto para o bem dos nossos espíritos
Quanto para o sal do corpo das nossas vidas

Vou não sei se mais perto ou longe daqui mesmo nesses
“Aquis e agoras” dos pensamentos que se embaralharam
Para poderem jogar com todas as regras do acaso da sorte
Saberes que gritam seu horror na noite mais silenciosa
E que por isso mesmo sugerem as nossas tensões mais maliciosas:
É de arrepiar cada pelo do nosso corpo o grito arfante do amor declarado:
Eu sou vida não sou morte  Eu sou viver não sou morrer
Eu sou a luz única da minha própria substância
Cheia de moral e ganância  

sábado, 16 de julho de 2011

NOSSOS TRÊS ANOS

Nossos Três Anos

Senti algo no peito nesta manhã de saudade
Saudade que me faz inspirar mais ar para dentro
E soltá-lo aos poucos para amainar meu quase sofrimento
Sinto que esses ares que inspiro e expiro são ares da verdade

Verdade que descompassa e cria tensões perigosas ao coração
Porque a mente perde quaisquer controles e faz pose de fatigada
Será que posso dizer que amo com a alma a menina por todos amada?
Será que posso iludir-me de que também sua alma me visita em minha solidão?

O poeta disse: “Eu era feliz e não sabia”
E eu digo que, ao olhar para você, Lulu
Quando você está a ensaiar os primeiros passos da bailarina
E a fazer poses e graças de toda feliz e sonhadora menina
Eu digo então que o verso do poeta nem passa por sua sombra

Digo, ainda, que tento lembrar-me se aos três anos
Eu também era assim feliz assim como você se faz cativar
 E também o Caito a empinar pipa no aprendizado da baianidade
Acontecimento que jamais pude imaginar em meus melhores sonhos
 O que só faz aumentar ainda mais a minha doída e voraz saudade

E assim vou criando tentativas para chegar aos meus três anos
Determinado a decifrar e avaliar a minha quota de felicidade
Mas não encontro nas lembranças daqueles tempos pistas
Que digam minimamente se eu era por lá um portador de alegria

Porém, contudo, todavia ao olhar para as suas imagens, Lulu
Imagens que recebo com a avidez de alguém que devora a ambrosia
Pela primeira vez, fico a vibrar com as fibras do meu coração
É muita emoção advinda da insondável e incontrolável paixão

Que gingas e caras são essas, Lulu?
Com isso você me faz pensar sem hesitar
De que na verdade mais verdadeira
 Você na minha a sua cara se insinua e sabe muito bem o que me diz:
Você, vovô, lá nos seus três anos, não duvide,
Você, vovô Barba, também era assim muito feliz.



sexta-feira, 8 de julho de 2011

TENTA TIRAR

Tenta Tirar
A gente tenta tirar de letra
De letra tentam tirar a gente
Da letra tiram a gente
E a gente tenta tirar de letra

Tenta até pentear careca
Namorar macaco de circo
Para fugir com o palhaço
Para rir depois com o mico

Tira de letra o cano do namorado
Tenta tirar também o pé da armadilha
A gente só volta pra gente todo engomado
Quando se livra de gente de quadrilha

A gente tenta tirar de letra com maestria de muita arte
Quando os apuros tentam que tentam nossa vida agora
 Nessa hora gente tenta ser mais do que se é gente/urgente
A gente tenta tirar de letra o que era pra se jogar fora

terça-feira, 5 de julho de 2011

COMANDOS

COMANDOS
Veio rogar
As melhores preces
Advogar
Em causa própria
Em sublimes pareceres

Evocou as ordens universais
Em suas múltiplas desordens
Falou do exagero dos comensais
Em detrimento dos desvalidos

Cada prece sua rogava tumultos
Tantas as coisas eram contrárias
Mulheres santas eram coisas de otárias
Mensageiros bons eram os portadores cultos

Que sabiam ocultar o saber acumulado
Contidos em abrir  demasiado
Com isso mantinham a tradição
Da parte comandar o todo.