Vidraças Quebradas I
O que pode doer mais do que perder um amigo
Não digo perdê-lo para a indesejada da foice
Mas sim para uma intriga mal ajambrada na idéia
E que detonou uma mágoa tão irreversível
Não é de se estranhar que um ser tão amado
Receptor das confissões mais secretas
Detentor dos segredos que são só ditos
Na mais absoluta confiança aos pés dos ouvidos
Não é de se estranhar que esse convivente
Possa de repente sumir da nossa vida tristemente
Como quem sem nenhuma graça desaparece
Não por um tempo, um mês, um ano, mas para sempre?
Quem sabe das coisas e que por isso se resguarda
Nunca depois da perda de um amigo que morava no peito
Nunca há de querer repetir essa experiência insana e malvada
Há de sempre querer preparar o seu coração para um amigo
Como se prepara para o filho tão esperado um berço
Como se prepara para o amado o alegre leito.
Vidraças Quebradas II
Quando tudo chega a ser quase de nada na beira do pior
E nada do que é - se pode dar para si - pode sequer ser melhor
Chegou a hora de mudar de homem
Chegou a hora de mudar de mulher
Chegou o tempo de só se lambuzar de mel e namorar
Namorar a mulher gostosa da esquina
Que na janela os seios dão bom dia
Quando ela “tão descuidada coitada”, se inclina
Namorar o homem do balcão
Que ao saltar para o lado da freguesa
A abraça de fazer saltar também sua alteração
Namorar uma namorada por dia
Cada dia um novo amor
Namorar cada simples expirar
Que a namorada joga no nosso olhar
Namorar o namorado como mistura de doce e salgado
Levá-lo pela gravata ou lapela
Nunca para dentro, mas para trás da capela
A namorar e namorar de ir pelos floridos parques
De mãos dadas em sensitivos pares
Namorar de ir ao cinema num filme muito louco
Comer pipoca no colo um do outro
Namorar cada namorada como se desejasse
Em cada uma delas dar conta de todas as mulheres
Honrar cada beijo enquanto se contem os impulsos
De todos os desejos de viver em cada amada
Todas as aventuradas vividas ou só sonhadas
Por todos aquelas que amaram sem limites
Todas as gentes de todas as manhãs promissoras
Em que a esperança se fez de graça aos presentes
Finalmente após só namorar pela vida afora
Escrever um romance tão desavergonhado
Que de todas as mulheres que foi namorado
De todos os homens de que foi namorada
Nenhuma se lembre sequer que fora por um dia
Amada.
Nenhum se lembre sequer que fora por um dia
Amado.
Vidraças Quebradas III
(Para a Ana Marisa pela sublime aula sobre Narciso.)
Quebramos tantas vezes nossos espelhos
Que ficamos com a cara toda moldada
Em tantas cicatrizes que não dá mais
Para dizermos: sou um ator, você uma atriz
Insultamos tanto aos deuses e deusas do amor
Que todos eles desistiram de nos estimular
Foram-se doar em outras almas mais sensíveis
Foram-se de para sempre e nunca mais voltar
Esses deuses e deusas guardiões e guardiãs das doações
Universais saíram derrotados da nossa relação
Saíram humilhados e fugidios por todos os lados
E agora foram se abrigar no nosso sem retorno
Como poderemos doravante olhar nos olhos
Dos nossos entes mais queridos e amados
Se somos portadores dessa praga que liquida de matar
Que responde perguntas com outras mais complicadas perguntas
E marca a ferro em brasa na nossa cara espelhada
-A nossa mais visível e terrível sina-
A nossa descarada incapacidade de outra forma de amar?
Vidraças Quebradas IV
Como podemos ainda alquebrados de corpo e alma
Farejarmos nas fronhas e nos lençóis do amor o perfume
Impregnado no espírito
Como podemos ainda em peito cheio de mágoas
Ouvirmos a música que embalou o primeiro sonho
E o transformou em vontade, em querer real
O que sonhamos nas noites que antecederam o grande encontro
Do que tínhamos de mais sublime naquele certo momento
Do que podíamos dar de mais ardente dos nossos desejos
Do que todos os jovens sofrem com imensa alegria e sem a mínima dor
Mas o que ficou na lembrança lá está para sempre
Não se pode descartar como se nunca existiu o que se sentiu
Em nossas entranhas algo ficou como ficou algo no esquecimento
Algo que poderá de repente vir com uma chuva de pensamentos
Idéias, metafísica, sensações, paixão e quem sabe uma escondida fé
Carregados das mais enlouquecidas memórias de nossos corpos, sua saudade,
Sua indecifrável verdadeira verdade
Corpos que se fizeram de vítimas das nossas fervuras e nervuras
Momentos que vivemos como as mais tresloucadas aventuras de dois seres
Momentos que só os que se amaram souberam dar vida e solenidade.
Vidraças Quebradas V
Calejada
Não vou forçar a sua barra
Pensa comigo: o instante.
Quanto nos custará contar
os fios de cabelo
ou
as estrelas no céu
ou ainda
curtir a saudade dos beijos
mais ardentes e sinceros?
Não vou forçar seus mais
estranhos pensamentos
As noites em que você sufoca
em seu invejado travesseiro
seus sonhos e lamentos mais tristes.
Não vou exigir portanto
a amizade mendigada
Quando seu ser insondável navega
na mais tresloucada madrugada
Com você não vou nem falar
de amor
Nas nuances de uma cor
em cada corpo, objeto ou cabeça de pintor
Pois não quero ser falastrona
Dessas que falam tudo
Mas não dizem nada
Para não perder o que nunca há
de ter preço
Para não chorar por quem
nunca se fez de falso príncipe
e não se enfastiou
de ser somente meu amigo
Daqueles que se dão a "rosa branca"
Digo aliviada
que posso agora respirar menos angustiada
Não vou contar por aí
Essa relação tão nossa, tão consentida
Quero o segredo em si
Levado pelos quatro-ventos
onde houver uma praça
onde houver a graça
de um sussurro de uma mulher e um homem
que se querem e que curtem o presente,
e não o "incerto do passado e o não sabido do futuro"
Vidraças Quebradas VI
Muitas voltas e tantas idas e giros outros
Tanto do bem quanto do mal
Doce açúcar misturado com sal
Viventes da noite sem vida ao sol
Nas voltas esperançosas damos de cara
Com as mesmas frustrações e sofrimentos
Nossa frágil tolerância berra sua insegurança
E tudo são apenas palavras ainda mais a esperança
Num daqueles giros em falso sem poder pensar
Comigo mesmo
Dei-me de face a face com o indigitado e indigesto
Mesmo malandro
Era o meu outro sempre inconformado
A exigir outro rumo para o meu próximo passo
Dizia que o meu caminho até ali caminhado
Fora traçado por um baita dum senhor dum acaso
Nessa encruzilhada entre o real e o sonho
Fiquei perdido no tempo - paralisado e zonzo -
Quase de viajar para o definitivo do além
Não fora o novo acaso de quase ser atropelado
Por um trem. Não. Fora um bonde, ainda bem
Amém!
Vidraças Quebradas VII
Não há dias em que só nos interessa o que
Conseguimos captar dos sonos
Capturar aquela coisa que só nos nossos sonos se revelaram
Por meio dos sonhos
Seriam essas coisas gentes e objetos que soubemos domar
Na única noite em que por instantes tudo no mundo virou calmaria?
Ave Maria!!!
A mulher amada veio assim sonhada
Toda disfarçada de corredora nua
Numa final de maratona embriagada de cansaço
Suor de cima a baixo vertendo também pelo regaço
Que estava a borbulhar cintilantes gotículas que pareciam bordar
As bordas multicoloridas do luar
Sem se dar conta de que eu a esperava para um chocante
Dum carinhoso abraço
Talvez um vigoroso dum “amasso”
Ave Maria!!!
Que mágica possível é essa de levitar nos sonhos
De nadar por qualquer água de qualquer rio ou mar
Sem se molhar
Que mágica é essa de só olhar a primeira vez e se apaixonar?
Ave Maria!!!
Não há dias em somos levados pelas falas misteriosas
Das poesias e nos ajoelhamos em rezas e pensamentos diante
De um místico qualquer ou qualquer mulher
Que mexem com nossas líricas entranhas aquecidas pelos desejos
E nessas mesmas nossas entranhas tecem teias em fios de ouro e magia
De dar inveja às artimanhas da mais bordadeira das aranhas?
Não foram tantos os poetas que teceram por essas mesmas teias?
Ave Maria!!!
Vidraças Quebradas VIII
Hoje eu queria me vingar
Quero em todos os amores-perfeitos mijar
Eu preciso hoje – sem falta – dessa desforra
Preciso com toda a alma estar por fora
Hoje é o dia em que vou realizar a minha grande mudança
Vou ralar minhas fantasias como quem carnavaliza a vida
E nela canta e dança desvairado como se sublimado
Dança de jogar pela janela
Toda a saudade do amor por cada uma delas
Seja Ângela, Zoraide ou Gabriela
Dançar de a a ze só pra ver
Que se danço danço porque sabedor do próprio fim
É melhor morrer cantando e dançando
É melhor viver e morrer assim
Minha
Vida
Resumida
Vida
Minha
Vidraças Quebradas IX
Quem lhe deu o aval
De poeta?
Acaso foi aquele andarilho
Maltrapilho da madrugada?
Que se embriaga
De doces e salgados ao lixo
Muita cachaça
E a própria alma?
Fora por acaso esse teu título de poeta
Conferido por algum provecto e ranzinza senhor
Já consagrado nas artes das letras
Cujas caras estão desfiguradas como vencido licor?
Se ninguém lhe deu nome de poeta
Como você ousa se dar ares de esteta?
Tristemente respondi a essa gente
Que se pauta pelas leis dos gerentes:
---Se não tenho nenhuma patente
A não ser a de ser gente
Se isso não lhe bastar
Basta meus versos rasgar.
Contaram-me que há um lugar para nós
- essa foi a mensagem -
Como deve haver um paraíso para os anões
Que não morrem nunca
Mas, que são encantados na última passagem.
Vidraças Quebradas X
Conto que
Disse o poeta que é conto tudo aquilo
Que o escritor diz que é conto
Isso é um conto e pronto!
Quando diz o sofredor Fernando
Isso é sofrimento
Sofre ele de sofrer mesmo
Ou é só fingimento?
Quando alguém diz que é
Em alto e bom tom diz eu sou
Como é que é?
Ele é o Edson ou é o Pelé?
Quando na iminência de morrer afogado
Alguém gruda e se agarra em algo e se acalma
Pode ele dizer que já lavou a alma
Ou ainda é cedo sem estar com o pé no seco?
Quando se conta um segredo só para o parceiro
É ainda segredo ou é coisa dita ao mundo inteiro?
É mesmo esse segredo conservado dentro da lata
Ou ele é logo grudado por fora como um rótulo?
Vou fazer minhas as suas mais inteligentes palavras
Quero ver se você concorda com o que vai ouvir
Ou se como eu você vai achar que exagerou ao máximo pico
Vamos ver se você tem a mesma sensação do ouvido ser pinico.
Vidraças Quebradas XI
Foi num lance de relance
Pé pós-pé no pó
Segura agora no cipó
Adiante qüiproquó
Frontispício do hospício
Pó de séculos
Pó de mártires
E pés de senhores pecadores
Donos das muitas terras
Sem águas e flores
Água benta no barroco
Barro oco
Desmanche de igrejas
E artes sacras em madeira
Escuta o jato que passa
Rasante
Piloto pedante
Novas trincas nas paredes
Reza
Não se sabe se com fé
Ou descontente
A mulher do inconfidente
Ela se sabe uma miragem
E como uma delas
Esvai-se com as luzes dos vitrais
Nossos olhos crêem no que vêem.
Vidraças Quebradas XII
Foi bem aí nessa curva de estrada
Bem quase de frente a esta venda e botequim
Foi-se como numa foiçada assim
Em capoeira voou na pernada assim
Beijou a boca do chão de pedregulho de assim
De “avoar” todo o corpo de ver tudo de ponta cabeça assim assim
Que o céu estava todo e muito mais estrelado isso ele viu, se viu
Não voou pro lado da lua porque ela não apareceu, não apareceu
Nem de relance no seu giro espetacular e cinematográfico
As dores só vieram depois do corpo se esfriar naquela umidade da poça
Não se sabia morto ou vivo ente, não se sabia
Precisava de um tempo para se entender
Vozes pareciam lamentar o seu visível estrago, muito estragado
Diziam que o sangue tingia pouco a pouco a água barrenta, lamenta
Em que repousava a cabeça como se fora travesseiro de paina
Alguém mais fatalista falou; “esse aí não apruma mais”
Não se soube naquele dia depois de levado o seu destino no sábado
Mas no dia de segunda-feira informaram que fora para o além passageiro.
Vidraças Quebradas XIII
Imaginar para além do horizonte
Só indo lá para conferir
E refletir
Imaginar o amanhã auspicioso
Só estando lá para saber
E pensar
Imaginar o encontro com o amor na noite pouco além
Só se o seu amor lá estiver assim imbuído também
Imaginar um consolo para quaisquer tragédias
Só se salvarem-se muitas vidas por outras vias
Imaginar a cada momento que no logo mais não seremos os mesmos
Só basta imaginar estarmos fantasiados em sobrepostas fantasias
Imaginar que nas roletas do mundo seremos os sorteados que a sorte acode
Só se de repente inventarem a pílula que eterniza a saúde e não dá bode
Imaginar que podemos nos apossar e comer da fruta desejada
Só porque pensamos nela com êxtase e água na boca
É também criar a imaginem de que também podemos outra vida viver
Nesta mesma vida nem que seja num ridículo coadjuvante personagem
De nós mesmos cuja memória foi um dia para sempre seduzida
Pelo definitivo esquecimento, aquele que mora no insondável nada.
Não há mais vidros a serem quebrados nas vidraças
Apenas as molduras agora dão formas retangulares e quadradas
Ao vento que sopra e se amolda ao seu próprio invento.
Vidraças Quebradas XIV
A nós, velhos amigos, que não matamos a nossa Eloá...
Você já parou como eu um minuto para pensar naquele amor perdido?
Muitos minutos, muitas horas, muitos dias, muitos anos
A vida inteira não vivemos com o velho pensamento na perdida amada companheira
Danada
À qual não damos trégua alguma ainda mais ao sublime daquela lembrança?
Nos bons e nos maus tempos a sua imagem gravada
Na nossa memória como uma imagem de santa em ouro
Na rica corrente que carregamos no já enrugado pescoço
Não fazemos mais recordar por mais do que viver, para o bem ou para o mal
Aquela Danada
Somos mesmo assim mais de muita água e pouco sal
Nossos males são os espantos que provocamos em nós mesmos
Nossas tristezas são tiranas de pano que atiramos como trapo
Pelo chão escorregadio em tiras coloridas desdenhadas
Ah! A Danada (nos faz poetar)
Vivemos de buscar naquelas lembranças tão caras e tão antigas
As nossas mais verdadeiras glórias de se saber em entrega de amar
Hoje pelos cantos em voz baixa e a doar o nosso triste cantar
Vamos levando a vida em criar só para o nosso amor as mais belas cantigas.
Não vamos mesmo?
Só para continuarmos às escondidas a lembrar da amada
Daquela Danada?
Vidraças Quebradas XV
Todos os odores do dia
Todos os ventos já farejados da noite
Penetram por entre os vidros quebrados
Das vidraças da nossa velha casa
Hoje abandonada e a ruir como a provar não existir
O sentimento de eternidade que em nosso álbum colado
Insistia em conservar junto a nossas fotos aquela nossa gente
A pousar em sorrisos a marca do tempo congelado
A casa de frente que abrigava extenso pomar e mil brincadeiras
Já fora demolida e em seu lugar outras casas surgiram
Aquela era uma casa de muitas janelas nas quais treinávamos
A nossa pontaria com estilingues de cabos de jabuticabeiras
Para quais alvos dirigiremos agora as nossas pedras e as nossas
Bolhas de sabão se as vidraças foram abolidas da nossa imaginação
E se o que resta de nós se esconde num mágico porão em que não temos acesso?
Nesta história não há escadas para ou rampas capazes de suspender o tempo
- pois se entende ser um sonho encastelado -
Que tem em nossa ilusão mais infantil a sua enigmática entrada.
Vidraças Quebradas XVI
Sal no Açúcar
Que ilusão é essa que tem
o nome de esperança
Que nos confunde e nos faz
imaginar a chuva no zinco
com os passos de um psicopata que
não sabemos e nunca saberemos
como enfrentar?
Que alucinação é essa que tem
o nome de esperança
na qual imaginamos e chegamos
ao ponto de ver o porto da paz,
a igualdade toleravelmente desigual,
a inclusão dos excluídos,
a poesia cultivada em todos os espíritos?
Que poetar é esse que tem
o cinismo e a ironia de andar
sem compromisso algum
por um jardim imaginário, tão mágico
Enquanto muitos companheiros se suicidam
na mais irreversível desesperança?
(Sem mais acesso ao refúgio
da criança
que trazia na açucarada lembrança?)
É - meu amigo, minha amiga
O sal no açúcar.
Vidraças Quebradas XVII
O esboço de uma pequena toalha
de renda
que cobrira a tampa de barro
de um jarro
Assim fora a imagem que passou
por mim naquela noite
em que os dias não são contados
como perdidos
mas sim vividos e contabilizados na saudade
O pote de água “limboso”
A lembrança “esculhambadosa”
a esperança mínima a viver tormentos
Dias em que o olhar menos arguto
pode ver a astúcia do tempo
Esses são os tempos do ontem e do agora:
a relação conspícua (notável) entre
o “argonauta” e o internauta
Bananeiras mirradas
Quintais agora descuidados
Carrapichos vivos
em abundância no chão de terra
no corpo e na alma:
coçam dolorido de chorar
todas as ausências de uma só vez
Numa velha fábrica de brinquedos
Esquecidos nos cantos aos montes
Velhos jogos quebrados, seus esqueletos
É o sentimento de encarar a vida dos
outros nessa mínima recordação
cínica de solidário no sofrimento alheio
Nos porões entupidos
Nos mezaninos alquebrados
e no quintal descuidado
Essas vidas - todas aquelas vidas -
que não mais importam
desprovidas de substância e paixão
implodidas junto com a memória
no tempo e no espaço
na relação com um perfume fugaz
que excita o esquecimento
nessa viagem em que se goza com o nada
e a graça da ação do amor.
Vidraças Quebradas XVIII
Notinhas sociais visivelmente
Inúteis e desprovidas de imaginação:
Alguns pulam sete ondas
Ele resolveu pular sete mulheres
E sete mulheres pulou
Mas, na última se arrebentou
Apaixonado de se perder em sonhos
Preparou casório e casa e acessórios
Convidou mil convidados em meio à semana
De prolongados feriados
Hospedou toda aquela gente em casa
Em hotéis e até em motéis
Tudo correu por conta do seu cheque
Especial em poucas semanas antes do casamento
A mulher não se precisa dizer que era um monumento
De tal porte e presença fenomenal que o reduzia a pó
De merda quando lado a lado se apresentavam ao social
Não deu outra:
No dia do casamento lá se foi ela fugida com um tenente oficial.
Uma ação processual corre em vara judicial
Para se ver quem vai pagar aquelas contas
Que foram se acumulando no pré-nupcial
Ninguém por enquanto quer segurar essas pontas
Que já rolaram pelos jornais nas colunas sociais
Não é mesmo menos tal coisa querer parecer demais?
Vidraças Quebradas XX
“Hoje não é um dia qualquer”
Sempre penso em começar a escrever
Algo com a frase aspada acima
E daí destilar um trem de otimismo
Que sei ser irreal, sem gosto
E tão falso que acho que por isso
Tudo se esvai e nada registro
Hoje parece ser diferente
Escrevo apenas sobre uma vontade
E vejo que as palavras que se soltam
Das rotinas sufocantes não aparecem.
Há um desejo, mas não se sabe sobre
As frases mutiladas, mas mumificadas
Vão com os seus pedaços compondo
Tudo que possa estar fora do lugar
Num abstrato de gosto muito duvidoso.
Vidraças Quebradas XXI
Digo aos bobos que me ouvem que sou um passageiro
De uma nave de outro distante planeta
Que assino embaixo e dou pública fé
Que fui aqui largado ainda moleque
Num orfanato em que recebi afeto e educação
Digo que devido a essa minha criação
Não me tornei uma pessoa muito complicada
Apenas, penso meio normal meio temperamental
Como quaisquer outras gentes assim também criadas
Se me bastei não sei, mas não fiquei me arrastando
Por aí como muitas criaturas de alma indomáveis
Digo que como quaisquer outros jovens eu também farejei o mundo
E especulei o céu noturno para tentar encontrar respostas amáveis
Também não apostei demais nas promessas e fantasias
Por sabê-las tão distantes dos meus pés no chão e das minhas mãos abertas
Digo, por fim, que nos momentos mais tristes da minha vida
Ao contar sempre com uma palavra amiga e consoladora
Consegui superar as garras afiadas dos predadores de plantão
Digo-lhe, amigo, um tanto acanhado que, hoje, contemplo
Mais livre de culpa e pressão, confesso, a cena na modesta manjedoura.
Vidraças Quebradas XXII
Cuidado velho
Ao falar de amor
Cuidado velho
Não há mais crédito pro senhor
Cuidado velho
Ao desejar amor
Cuidado velho
O descrédito ri do senhor
Cuidado velho
Ao pensar na vida
Cuidado velho
Ela esta a cobrar sua dívida
Cuidado velho
Ao abrir os olhos de manhã
Cuidado velho
Secou-se ontem o pé de romã
Cuidado velho
Ao contar sua vida passada
Cuidado velho
A tua história é memória desmiolada
Cuidado velho
Quando você está a dormir
Cuidado velho
Se vivo estás há alguém a conferir
Cuidado velho
Teus dias são tão poucos
Cuidado velho
É melhor vivê-los como os loucos
Cuidado velho
Os moços de hoje não sabem
Cuidado velho
O jovem que você foi ontem.
Cuidado velho
Você está tão perto do incerto
Cuidado velho com suas manias
Não adianta mais ficar esperto
A máscara do tempo não poupa nem alivia
Vidraças Quebradas XXIII
Disse o poeta que:
“Quando se sente bater
No peito heróica pancada
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer”
Podemos desenrolar esse cordão
De ouro poético e revelar por aí
Que são tantas as pancadas dentro
Do peito que às vezes viramos
Caixas de ressonâncias dessas batidas
Que em um momento rufam num
Repentino amor para depois repousarem
Em lentas marchas em que o em nós guerreiro
Parece repousar com seus familiares múltiplos
E versáteis instrumentos e suas musas musicais
Cada qual a se deixar recuperar desvelados
Das invasões nos românticos corações animais
Que se deixaram envolver de desejos
E amores carnavalescos nas entregas
Dionisíacas de viver a vida aqui e agora
De se deixar levar pelo “Rio que passou em minha vida”
Dizemos com o poeta:
“Quando se sente retumbar
No peito tão profundas pancadas
Todos aqueles instrumentos com o surdo na marcação
Deixa-se a casa fechada
Enquanto se vai à rua sambar”
“Foi o Rio
Foi o samba
Foi a Camélia
Foram vocês que passaram
Em minha vida
E eu?
Eu... cedi... carnaval envolvente
podem me levar
na madrugada do para sempre.
Vidraças Quebradas XXIV
“... Ninguém é de ninguém
Nada vida tudo passa, amor...”
Nessa toada sem ler nada
De psicanálise e as tantas análises
O artista popular na sua toada
Ia e vai a decifrar o que se esconde
Seja num vampiro como num mendigo ou um conde
As cores próprias de cada explosão de suas almas
É mais voraz aquele que só por dizer coisas bobas
Vive a se indispor pelos bares e lares
É ele mais voraz do que aquele que se faz de vítima
E fica a roer o ar que respira até torná-lo fatigante?
Que desculpa podemos dar quando nada fizemos
Para que os laços mais nobres fossem cultivados
No dia a dia de cada relação que por si só já têm
Os seus dias contados em rígidas matemáticas de pós-graduados
Que se desdobram em múltiplos exemplos de como
Frustrar os que abusam dos cálculos simplistas da aritmética
Lá onde menos é menos mesmo e o mais é muito mais do que
Um sinal que de tanto acumular dores está a colher rancores
Não há diálogo possível na lógica dos que cultivam
Os próprios umbigos para sempre presos no imaginário
E primordial cordão umbilical conservado em poucas prosas e rasos
Versos destilados num bote de quem não se queria incomodado
Não podemos envenenar um mais outro menos ao outro
Podemos quando muito dividir ou multiplicar peçonhas
Em nossos corpos já calejados e imunes aos ataques pífios
Sofridos pela vida afora em nossos corpos rígidos como
As estátuas de mármore e bronze nos museus conspícuos
Não há mais em nossa mesa de comer o desejo de ser amado
Uma brincadeira que ao mesmo tempo em que longe de humilhar
Esteja apenas uma auto-ironia e sua graça querendo compartilhar
“Nesse tipo de fé quotidiana é melhor rasgar meus versos e descrer
de vez da eternidade”.
Vidraças Quebradas XXV
Você que tem a resposta na ponta da língua
Cuidado para não mordê-la na hora de falar
Cuidado para não cuspir no meu nariz aprendiz
Dos faros mais descuidados dos seres das malandragens
Você que tem pronta a sua verdade e a sua certeza
Não venha sem mais aviso corromper meus ouvidos
Com as façanhas miraculosas das suas conquistas
Estou mais para ouvir desamarrado aos cantares das sereias
Que madrugam bem embaixo do meu barco
Ancorado na praia dos meus sonhos alucinados
Ainda vou levantar âncora em dia de tempestade
E deixar minha nau ao destempero dos ventos
Quero ver se os deuses das ondas, dos ares e dos mares
Vão me levar para a cidade do eterno carnaval e sua raia
Para sambar naquelas avenidas poucos dias como se fora o memorial
De todos os dias de uma vida - talvez expire em alto mar e seus altares -
Talvez venha sem graça alguma assoprar pela última vez na sua praia
Nos pequenos grãos de areia que ficaram em seu colo a brilharem ao sol.
Vidraças Quebradas XXVI
Falta de ripas nas janelas venezianas
Estilhaços de vidros das janelas envidraçadas
O mato a lhes perpassar até o velho telhado
Aonde nasce uma flor amarela exuberante
Parece que tudo poderá ruir de repente
Ou durar outros tantos séculos e dobrar
O tempo da sua história nunca verdadeiramente
Sabida e suficientemente esclarecida
Meus olhos não se contentam em apenas contemplar
As paredes das casas e suas outras formas submissas
Às arquiteturas e suas provas concretas de sabedoria
Meus olhos ajudam a pensar no suor aqui desaguados
E o real dos músculos dos milhares de trabalhadores escravizados
Que aqui pisaram em suas próprias dores e sofrimentos
Pisaram seus pés descalços nas pedras escaldantes das ruas
Para levar para o porto toda a riqueza que nunca foram suas
Há ali um velho homem que vende seus doces deliciosos
Há na sua receita os mesmos ingredientes de antão
Há na sua forma de manipular as guloseimas os mesmos gestos graciosos
Há tanto tempo passados em segredo de geração a geração
Há no meu olhar uma saudade que não consigo explicar
Uma lágrima em que poderia ser narrada toda a sua química
Vem visitar meu rosto e dar ternura ao meu ser saudoso
Talvez pense, ardiloso, que jamais possa dizer de onde essa lágrima advém.
Vidraças Quebradas XXVII
Saímos em duplas ainda bem antes do amanhecer
Eu e meu amor fomos de mãos dadas bem apertadas
Em busca do que houvesse de mais oco no mundo
Começamos por consultar e auscultar a cabeça
Do parceiro na singela empreitada desse tudo ou nada
Lá pela hora do almoço maior era a fome de quem era
Mais moço e de morrer de cansaço os mais velhos
Pois fora longa a jornada naquela manhã ensolarada
De um verão atípico e mandado pelos ares do Pacífico
Depois de um descanso prolongado pela longa tarde
Reiniciamos nossa busca com o anoitecer chegando
Uns foram atrás do oco pelos túneis dos metros
Outros pelos buracos dos tatus e outros se foram
Por morros e montes e montanhas e serras e terras afora se procurou
Todos sentindo que poderiam encontrar o oco do mundo
E não é que o Pedro Gonzaga acabou por achar o procurado
Só que estamos aqui esperando por ele que nunca mais voltou
Não dá essa história para ninar qualquer bobo que até aqui me confiou?
Vidraças Quebradas XXVIII
Çasviadr dasbraque
Drasviça braquedas
Ç
A
S
V
I
A
D
R
B
R
Q
U
E
D
A
S eadeuqarb rdavisaç
Açivsard sadeuqarb
No mais chão do ser
No ser mais chão
No chão o machão morto
No norte do chão
Para o seu umbigo
Único amigo
Único
Para os cacos de vidro
Salpicando toda a pele
Já sem nervuras, adeus
É a vida a se esvair
Como uma bem vinda
Benção dos céus
Explode, razão.
Vidraças Quebradas XXIX
Feita nas coxas as telhas não saiam lá essas coisas
E os feitos que fizemos entre as pernas embriagados
De álcool e incontrolável vontade de fazer amor
Em plena guerra pela sobrevivência em noites de fome de ardor?
Como pode nada ficar de um ato tão poderoso
Como a entrega de dois seres que se pensam amar
Mas não resistem às ondas desencontradas das relações?
Não sobrevivem, vimos, os amores que dependem de mais procura
Não, não podem continuar a ter vez e voz quem é vítima
Sempre vítima dos projetos e desencontros da vilã loucura
Não podemos dar o que temos o tempo todo da nossa vida mais íntima
Porque somos arremessados nas mesmas sagradas rochas que trituram corações
Há, sempre, de haver um novo amor na nova lua da noite que se inicia
Há, sempre, de haver uma mulher escondida no de repente de uma sombra
Há, sempre, de surgir essa esperada amada como se viera do antes do nada
Há, sempre, uma mulher, essa esperança, em nosso peito
Que rola só a espera de um novo e incontrolável feito
Bem feito! Eu não disse?! Bem feito!
Venha então mulher da vida dos meus sonhos para o meu leito.
Vidraças Quebradas XXX
Tão pão
Quanto o dia mais quente do verão
Tão água
Quanto os mares de desventuras vistos do cais
Tão amarga a sua natureza
Que nela mora com certeza a incerteza
Tão doce fora na paixão
Que vivera de água e pão
A pisar nuvens nunca o chão
Tão triste ficou com as traições da razão
Que se deixou levar pelas obscuras idéias
Dos que pensam que pensam que pensam
Sem nunca dar ouvidos aos jogos alheios
Tão refém do tempo faça frio ou calor
Insegura com as rédeas invisíveis
Vive a louvar o próprio sofrimento
Como se louvasse seu compromisso com a dor
Vidraças Quebradas XXXI
Vou contar em segredo o meu desaparecimento
Não fui por ir de livre e espontânea vontade
Fui por força de seres com uma força maior sem sofrimento
Fui porque tinha que ir mesmo não querendo
No volta aqueles estranhos deixam uma dúvida na minha cabeça
Que é para que o nosso contar sofra dessa dolorosa duvidez
É assim como se a gente estivesse a contar um sonho de uma só vez
Desses que a gente sonha sem pé ou miolo que esclareça
Tenho que ser muito esperto nesse meu revelar secreto
Por isso escolhi o teu respeitoso ouvido que sei discreto
E que nunca se comprometeu além da exata conta com a língua solta
Coisa de sofrimento de muita gente que não guarda segredo
Vou então contar tudo de uma só vez para poder logo finalizar
Toda a verdade e toda a aventura em que estive no meu viajar
Fiquei dois anos perambulando pelos planetas do nosso sistema solar
Olhe agora bem para mim e veja se você nota alguma coisa a faltar
Ta vendo só: pois não é a minha memória que não conseguiu voltar.
Vidraças Quebradas XXXII
O real nem sabemos mais definir
Talvez e mais provável
Nunca se soube distinguir
O que é dor do que é amável
Depois de abrirmos mil portas
Encontraremos a resposta pronta
Do que é a vida e seu viver sem asas?
Desvendaremos o enigma e a sua ponta
Como a ponta de um novelo para podermos tecer
As respostas para as questões até aqui sem respostas?
Talvez possamos por mera sorte em mero acaso
Por algum tempo olharmos para o que chamam ser real
E até acharmos engraçado o que já vem caricato
Todo sempre desembrulhado tropeçando absoluto
Em tudo que inventa e tenta depois dominar
Por um momento esse real poderá nos cativar
Só por um momento, nada mais que isso e já é muito
E disse o poeta: “Isso que vocês chamam de real me constrange.”
Vidraças Quebradas XXXIII
Os olhos embaçados como o vidro de uma janela
Toda trincada assim aquele homem na multidão
Viu passar por ele o que tirava os olhos da escuridão
Porém nada podia fazer pelo ser que deixava seu rastro em sangue
Ao seu lado um homem se atirou contra a ponta de uma lança
Que lhe vazou pelas costas enquanto ele a segurava evitando a retirada
Fora um gesto em que não acompanhara um grito ou gemido sequer
Fora um ato de quem não agüentava mais presenciar o terror e nada fazer
Muitos olhos irados incentivavam os torturadores pela via tortuosa
Muitos desses olhos queriam ver de perto a justiça que aclamaram
Clamor que tem a ousadia de na palavra trazer amor em sua sentença
Na própria hora em que condena e pede ao julgador aquela cabeça:
É o clamor popular que nada têm de amor ou lar
Quantas vezes na vida não vemos de passagem algo que nos choca
Mas que não podemos nada fazer ou dizer diante de tal aberração
Quando assistimos pela centésima vez à encenação da derradeira
Crucificação sem nunca derramarmos uma única lágrima de compaixão
É porque somos assim mesmo: uma indiferente galinha chocadeira?