Três poetas em minha porta aberta
Três poetas diferentes
Três amigos que se toleravam
Três vidas em muitas vidas
Um deles amava outros poetas
Como amava toda a poesia
O outro deles que odiava outros poetas
Amava algumas poesias
O terceiro deles não amava outros poetas
E não chegava a odiar as poesias
No entanto, eram poetas
No segundo tempo da vida
Foram morar em lugares diferentes
Quando, anos após, se reencontraram
O deles que amava a poesia
Como amava a outros poetas
Passara a odiar outros poetas
E a amar só algumas poesias
O outro que odiava outros poetas
E amava algumas poesias
Passou a amar outros poetas
E adorar toda a poesia
O terceiro apartou poetas que amava
Dos poetas que odiava
Apartou as poesias que desprezava
Das poesias que amava
Foi o último encontro deles
Saíram para lá de taciturnos
Certos de que já não se desentendiam
Como antigamente
Mais certos ainda de que as suas convicções
Tornaram-se voláteis
E que as distâncias e os meios moldam os sujeitos
E eu que carrego os três poetas na cabeça
Fico com a sensação de peito vazio
Inclinado em meu eixo
Mas de nada padeço
Desfruto como música esses desencontros
No tempo e no espaço
Com portas e janelas abertas para só ajuizar
O que me interessa
Nas noites em que penso sem pressa
Na encaracolada necessidade de negar
As seduções caducas do amor