terça-feira, 31 de maio de 2011

Nossos Eus Dos Sonhos e o Café da Manhã



Café da manhã 1

                            Ainda no embalo de um sonho amoroso
                            No torpor de algo agradável e no mistério
                            Do desejo gerado nesse amanhecer distinto
                            De cutucar e coçar a vontade para a continuidade

                            Vontade de prosseguir no mesmo sonho
                            Ao se procurar cochilar-dormir de novo
                            Vontade de recuperar as delícias maliciosas
                            Que ainda se escondem dentro do nosso eu em gozo

                            Nossos eus dos sonhos porque somos lá dentro
                            Duas vontades que se dão bem e se querem...
                            Embora a geradora dessa onda seja apenas o meu querer
                            Que se revelara naquela noite que acabara de ir embora

                            Esse sonho bem sei que não se completa ao ponto de se esgotar
                            Deixa ele a vontade de nas próximas noites sonhar igual
                            Deixa ele a lembrança de que ainda podemos viver tal e qual
                            Na mínima esperança de um novo e muito criativo sonho
                            Desse porte nos alimentar com a simplicidade de um gozo.
                            Deixa ele                      





Café da manhã  2


                            Há uma hora para se dar no pé
                            Hora em que já se esgotaram
                            Paciência, lucidez, abalos na fé
                            É a hora dos que se evaporaram

                            Como que por milagre das vistas
                            De todos os que se diziam parentes
                            E amigos ou colegas chegados
                            Evaporar assim é das maluquices

                            A mais radical mudança de vida
                            A saída de cena da mesmice
                            Das rotinas sufocantes
                            Das mágoas dos desafetos

                            Quem sabe no futuro os amores
                             Venham a se comportar determinados
                             Por uma etiqueta como essas em códigos de barra
                             Para se levar para casa como mercadorias quaisquer.
  





  Café da Manhã  3

                               Amanhã bem de manhã
                               Aos primeiros raios
                               Aos primeiros cantares
                               Aos primeiros aromas

                               Amanhã bem de manhã a vida
                               Aos primeiros raios vívidos do dia
                               Aos primeiros cantares dos nossos canários
                               Aos primeiros aromas do café, do leite, do lençol ao sol

                               Amanhã bem de manhã a vida ensolarada
                               Aos primeiros raios vívidos do dia a você consagrados, amor
                               Aos primeiros cantares dos nossos canários em seus espetáculos
                               Aos primeiros aromas de café, do leite, do lençol ao sol na janela

                               Amanhã na janela
                               Raios e canários consagrados
                               Cantares vívidos na manhã desdobrados
                               Aromas na manhã com a vida ensolarada
                               Não é muito mel de se lambuzar, amiga?

RASGA I

O poeta disse “Rasga meus versos, crê na eternidade”
              Como que com isso quisesse punir a sua inventividade
              Ao cultivar seus terríveis remorsos por dantes haver dito
              Que “céus não existem, não existe inferno/ o prêmio
              Da virtude é a própria virtude/ o castigo do vício o próprio vício/

              Nesse duelo das suas antigas com as novas convicções
              Misturadas as verdades com as mentiras
              Fica a escrita no papel que não deixa de divergir
              Com os complicados novos e religiosos pensamentos do poeta

              Não lemos o mesmo poema da mesma forma
              Todas as vezes que por ele passamos
              Não colhemos os mesmos grãos do ano anterior
              Afirmam os que semeiam a terra, imaginem os espíritos!

              Quero preferir os versos que o poeta mandou rasgar
              Convicto que estava da sua conversão cheia de mutretas
              Não vou acompanhar esse diabo arrependido nesse chiar
              Que carrega em sua nova sombra rabos e chifres em setas.    

MERGULHOS V

Não abra mais nada para o falso pára-quedista
Aquele para quem você abriu o cândido coração
Além das suas mais recônditas vontades amorosas
Numa entrega de quem almeja só sonhos e liberdade

Não abra mais nada para o falso que canta ardiloso
Pelos cantos das sombras de um entardecer amoroso
A desdobrar o escondido das ingênuas vontades amorosas
Pois há um canto em sua boca que parece injetar veneno poderoso

E inebriar as moças que ainda sonham com príncipes
E acordam num cartório diante de um juiz e sua sentença
Ou numa igreja diante de um padre no palco de um altar
Por essas e outras não abra mais nada para o doce vilão

Tão de mel seus beijos avassaladores e melados
Tão de caramelados seus abraços grudentos, sedentos
Tão de hormônios suas nervuras e musculaturas rijas
Que não convém sem mais indo se lhe abrindo, na cama, no chão,
Ainda mais as pernas, pés descalços e coxas lisas
Sem antes conhecer quem lhe espreita - corpo e coração – talvez a alma
Ainda refém da paixão...as taças vazias, a garrafa de vinho entornada.

MERGULHO VIII

Em tudo há um fundo falso e frágil
Percepções são pinceladas rápidas
Num painel feito no imaginário de ar
As cores se dão nós e despencam em pó

Em socorro dos que têm medo do escuro
Que encobre idéias e sugere aventuras poucas
Temos pensamentos que brilham escondidos
Entre as páginas dos bons livros esquecidos

Por detrás de outros livros de capas duras
Para somente enfeite e deleite de quem não os lê
Sequer se sabe se existe mesmo algo ali escrito
Uma aventura digna desse nome ou apenas

O enigma que decifrado salvaria o dia, talvez o mês
Por que não o ano do leitor que pensa em se matar
No próximo minuto e já carrega o tambor da arma
Com balas que poderiam ser - pela leitura que não fez-
Balas de artificial morango, que sejam sabores naturais...
Balas de goma ou caramelo com chocolate
Balas que não vão lhe furar e dar fim a um mínimo
De inteligência, mesmo esta indigna e indigente
Mas inteligência presente na vida que sabe existir sempre
Uma última esperança, uma fé verdadeira,
Um cafezinho com pão e manteiga de uma caridade
Talvez por derradeiro – para se continuar a viver –
A lembrança, a memória, a recordação de um único
Ato de amor que ressurja do esquecimento e se faça
Presente como o mais puro aconchego.

domingo, 29 de maio de 2011

COISA DE BÊBABO

Coisa de Bêbado
Como pode alguém dizer que está perigando no vazio
Que está a ver navio sumir no horizonte e não quer por marra
Ver que lá daquela linha outros navegantes estão a vir
Para contar suas sensações e folias pelos mares seus amares

Vou lubrificar um pouco as engrenagens musculares desses tediosos
Meus amigos melancólicos que sempre estão de dia seguinte
A reclamar dos efeitos dos excessos alcoólicos e tira-gostos saborosos
Consumidos com voracidade e ganância de faminto pedinte

Há algo mais nesses encontros de bares em bares
Algo que pode beirar o sagrado de tão inebriante o profano
Ou é apenas mesmo coisa de bêbado que idolatra a embriagues
Que se encontra na roda da vida desolado de não se ter mais dó?

Será que o remédio para se curar e não remediar
Tanto tédio que não cansa de entediar de tanto se repetir
Não seria ir buscar no além mar de toda boba angústia por vir
O nadador adormecido que se esqueceu do gozo inenarrável
 De se nadar soberano nas possíveis águas de um novo despertar?   

quarta-feira, 25 de maio de 2011

AVÓ DESTRAMBELHADA IV

“Quero também segurar as suas mãos”
O que penso que penso agora é o que sou agora assim meio
 Que poeta da hora a exorbitar
Daqui a pouco serei o que pensarei esquecido do já pensado
Que deverá ficar prensado entre dois pensamentos já pensados
Enquanto uma fila de pensar não pensado aguardam a sua vez
Vez por outra nem chegam a pensamentos são somente arrepios
Como que a provar a existência dos anjos que nos guardam sorridentes
Outras vezes inspiramos e expiramos e o pensar fica diluído nesse ato
Quantas vezes não achamos que estamos pensando coisas importantes
E depois notamos que só estávamos a expelir apenas fungos do pensar?
Já ouvi dizer de gentes que não pensam porque dizem doer só de pensar
Em pensar qualquer que seja a bobagem exorbitada
E que para não enlouquecerem ficam só respirando os pensamentos
E com isso se livram de pensar pensamentos que são maléficos e doentes
E que se amarram nas gentes que não param de pensar sempre vigilantes
Penso agora que estou disposto a dar também incerto tempo aos pensamentos
Penso aqui nesta praia diante destas águas límpidas vitaminadas de azuis e verdes
Que os meus olhos não precisam pensar nas lágrimas que derramo nesse lindo mar
Por conta da saudade que me arrasta ao fundo do meu sofrido coração
Sem razão de eu nem pensar que já fui ser exorbitado
De alguém distante arrancar de meus olhos as águas que não vem do pensar
Mas das doideiras de quem sabe que só pensamento não é a plenitude de se querer
Preciso abraçá-los e também segurar as suas mãos Luana e Caito, meus amores
Que fazem meus pensamentos prisioneiros nesse pensar de só amar vocês.

terça-feira, 24 de maio de 2011

SELA PARA CAV-HALOS

Sela Para Cav-Halos
Que necessidade é essa de ainda se sonhar que se é herói
Para quando ao se acordar apenas nos sentirmos de bem
Com os nossos desejos que assim nos fazem pensar que
A vida pode continuar a galopar nossos corpos assim selados

Como cavalos que disputam o prêmio para seus donos
Em troca de uma foto no jornal do feriado em que ele
Esnobará o cavalo da baia ao lado como ser inferior
Digno de uma aposentadoria precoce na fábrica de salsichas?

Que necessidade é essa de ainda de se sonhar
Ainda um pouquinho mais no quase despertar
Quando podemos rir de nós mesmos sem qualquer
Constrangimento diante de mil gentes que nos vigiam

Sem censura ou qualquer conselho para uma vida reta
Nesses momentos em que somos os atores em cena
Para os espectadores que só aprovam e abençoam nosso interpretar
Sem saberem que nossa meta é tão somente nova
Energia recompor e com isso ganhar mais vida a nos levar?